Mercado de trabalho é cruel com deficientes
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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006
Erika Zanon<br>Reportagem Local 
As mãos são hábeis ao lidar com as máquinas e computadores do Centro de Hemodinâmica da Santa Casa de Misericórdia de Londrina. O sorriso no rosto parece até esconder que essas hábeis mãos sofreram com a paralisia infantil. Empregado há dois anos pelo hospital, Paulo Cesár Rodrigues, 24 anos, que ainda cursa o ensino médio, afirma que a função que exerce o faz muito feliz. ''Adoro computadores e máquinas. Ainda pretendo fazer faculdade de ciência da computação'', planeja.
A colaboração dos colegas de trabalho é o que deixa a auxiliar administrativa Nilma Ruth de Oliveira, 37 anos, cada vez mais segura e disposta a trabalhar. Há um ano contratada pela Universidade Norte do Paraná (Unopar), onde conseguiu seu primeiro emprego com carteira assinada, a cadeirante Nilma, que nasceu com má formação da espinha, se move com destreza pelos corredores da instituição, cuja infra-estrutura está adaptada para receber pessoas com deficiência. ''Aqui eu recebo muito apoio, atendo profesores e alunos, coloco avisos no mural, levo documentos na sala de aula. Barreiras, só lá fora, e não apenas as arquitetônicas, mas o preconceito da sociedade'', ressalta.
Os sons frenéticos da produção passam despercebidos por Anderson Mendes Barbosa, 19 anos. Surdo-mudo desde que nasceu, o rapaz conseguiu seu primeiro emprego com carteira assinada há três meses, na lavanderia industrial Clarear.
Apesar das barreiras para se comunicar, Anderson não teve dificuldades em aprender a função de auxiliar de secagem. Com a ajuda de um intérprete de libras (a linguagem dos sinais), ele disse à reportagem que ''se sentiu muito feliz quando foi contratado, pois não é fácil conseguir uma vaga no mercado de trabalho quando se tem alguma deficiência''.
Os personagens, vitoriosos, fazem parte de histórias pouco comuns em Londrina: pessoas com deficência inseridas no mercado de trabalho. A exclusão começa muito cedo, quando os deficientes encontram barreiras e dificuldades arquitetônicas, somadas ao preconceito da sociedade, para cursar até mesmo o ensino fundamental.
''Falta política pública estruturante para possibilitar qualificação profissional e até o acesso à educação fundamental. As escolas de ensino básico muitas vezes não têm acessibilidade. Daí as pessoas com deficiência acabam não estudando e não se qualificando, e ficam sem condições de lutar por um emprego'', pontua Martinha Clarete Dutra, presidente do Conselho Municipal dos Direitos das Pessoas com Deficiência
Na outra ponta estão os empregadores. Desde 1991, as empresas com mais de 100 funcionários precisam cumprir a Lei 8.213/91, que obriga o estabelecimento a preencher uma cota de 2% a 5% do seu quadro com pessoas com deficiência ou reabilitadas do INSS. Poucas empresas, entretanto, cumprem a legislação, seja porque não encontram pessoas capacitadas ou simplesmente porque não querem dar uma oportunidade.
Em Londrina, segundo dados do Ministério do Trabalho existem 121 empresas, exceto os órgãos públicos, com mais de 100 funcionários. Ao todo, essas empresas deveriam ofertar 1.150 vagas para deficientes, mas atualmente estão disponíveis 469 postos de trabalho e apenas 242 pessoas com deficiência estão empregadas.
Dados não-oficiais do Conselho Municipal, porém, dão conta que 500 pessoas com deficiência estão trabalhando formalmente na cidade. ''Isso é apenas uma estimativa, pois estamos construindo nosso banco de informações'', disse Martinha. Segundo ela, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e estudos relacionados apontam que cerca de 14,5% da população tem algum tipo de deficiência e, desses, 9% estão em idade produtiva. ''Em Londrina esse número seria de 5 mil pessoas com deficiência que deveriam estar trabalhando. Mas estamos bem longe disso'', lamenta ela.


