Mercado de proteína animal entra em tendência de alta
Ajustes na produção de suinocultura e avicultura durante ciclo de baixa e demanda maior do exterior elevam cotações e devem pressionar consumidor interno
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 07 de maio de 2019
Ajustes na produção de suinocultura e avicultura durante ciclo de baixa e demanda maior do exterior elevam cotações e devem pressionar consumidor interno
Fabio Galiotto - Grupo Folha 

O preço da proteína animal reagiu neste ano no Paraná e no País e tem a perspectiva de crescer ainda mais nos próximos meses, o que deve beneficiar produtores e apertar o orçamento doméstico das famílias. Depois que avicultores e suinocultores passaram um 2018 com remuneração próxima dos custos de produção devido à baixa demanda interna, os valores pagos aumentaram neste ano frente à perspectiva de maior demanda no exterior, principalmente na China. Já a carne de boi segue em ciclo de alta com a abertura de novos mercados nos últimos anos.
O Paraná e os outros estados do Sul, que são os que mais exportam aves e suínos, serão mais beneficiados. Segundo levantamento do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada) da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), o valor médio mensal de abril de R$ 3,45 por quilo foi o maior desde os R$ 3,55 de dezembro de 2015, em cotações atualizadas pelo IGP-DI (Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna). A cotação do mês passado representa valorização de 10,2% sobre março deste ano e de 48% ante abril de 2018, quando o Brasil teve o mercado prejudicado por embargos impostos pela União Europeia.
Tendência semelhante aparece no mercado de carne suína. Conforme o órgão, as negociações estão aquecidas nos três estados do Sul, mas, além da demanda externa forte, há o componente da baixa oferta de suínos em peso ideal para o abate. “Com as margens apertadas anteriormente, muitos suinocultores saíram da atividade”, diz a analista de mercado Maristela de Mello Martins, do Cepea. Já em São Paulo e em Minas Gerais, “que se caracterizam por destinar maior parte da produção ao atendimento do mercado doméstico, a liquidez foi mais lenta”, informa o relatório semanal do órgão. Na média, o preço nominal do quilo de carne de porco foi de R$ 3,74 no início de janeiro a R$ 4,02 em maio, alta de 7,48%.
Para o boi gordo, a oscilação se mantém. O Indicador Esalq/B3 foi de R$ 154,00 para 159,20 entre o início e fim de abril, ou 3,37% em um mês. Novamente, o órgão estima uma queda da oferta causada pela saída de operadores do mercado e uma maior demanda pelo bom desempenho das exportações.
PESTE SUÍNA AFRICANA
A China é o principal motor desse movimento de mercado. Dono de metade do rebanho de porcos do mundo, o país asiático teve de sacrificar 30% do rebanho devido à incidência de PSA (Peste Suína Africana). Tanto as exportações de carne de porco quanto de frango devem aumentar neste ano, já que a doença também gerou certo temor entre a população chinesa em relação ao consumo de suínos. “Com essas duas proteínas mais caras, há espaço também para que o preço da carne bovina aumente”, diz Martins.
Para o professor de economia Eugenio Stefanelo, da UFPR (Universidade Federal do Paraná) e da FAE, o aquecimento da demanda logo após medidas de ajuste da oferta por parte da cadeia incomodada com os baixos valores recebidos deve pressionar o valor da proteína animal. “Esse ciclo vai perdurar neste ano até porque há uma demora de alguns anos para se retomar o tamanho do rebanho de suínos, tanto aqui quanto na China”, diz.
Por outro lado, ele estima que outros alimentos que compõem a cesta básica, como tomate, batata, feijão e cebola, devem ter preços menores, o que reduzirá o peso sobre o consumidor. “Mas, para o produtor de proteína, a margem positiva fará com que aumentem a produção”, diz Stefanelo.
Já a analista de mercado do Cepea vê a indústria integradora e produtores independentes ainda reticentes. “As expectativas são positivas, mas há muita cautela em fazer novos investimentos”, afirma Martins.
RECUO NO VALOR DOS GRÃOS REDUZ CUSTOS
As expectativas de safras volumosas de soja e milho nos principais países produtores, como Brasil, Estados Unidos e Argentina, têm derrubado as cotações dos principais componentes da ração e ajudado ainda mais aos pecuaristas no País. Ainda, o abate de 30% do rebanho chinês de suínos tende a diminuir a demanda por grãos.
Segundo o Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada) da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), o bom desenvolvimento das lavouras de milho faz com que compradores já abastecidos façam compras pontuais e o Indicador Esalq/BM&FBovespa registrou baixa de 12,5% em abril. Para a soja, ainda que a queda no Brasil tenha sido limitada pela valorização do dólar, o órgão registrou baixa de 2,8% entre 26 de abril e 3 de maio.
“A soja e o milho são insumos e têm barateado principalmente suínos e frangos”, diz o professor de economia Eugenio Stefanelo. Mesmo assim, as cotações internacionais da proteína animal devem manter os valores das carnes de frango e de porco mais altas. “Temos um levantamento que mostra que, ao longo dos anos, quando grãos estão em ciclo de alta, as proteínas estão em baixa. Mas não nos debruçamos o bastante sobre o assunto para explicar por que isso ocorre”, explica a analista de mercado Maristela de Mello Martins, do Cepea.


