'Mercado de combustíveis tem apenas um dono'
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 21 de julho de 2008
Fernanda Mazzini<BR>Reportagem Local 
Cartel, dumping, sonegação fiscal e adulteração de combustível. Estas palavras são bastante comuns aos londrinenses que, desde o início da década, se acostumaram a acompanhar todos os capítulos do que muitos acreditam ser uma verdadeira ''guerra'' com todas as suas nuances: tramóias, conchavos, ameaças e violência. No entanto, ao contrário do que muitos pensam a ''guerra'' é financeira, como garante o proprietário de um posto de combustível, que esteve na redação da FOLHA e preferiu não ter o seu nome revelado por temer represálias. Nesta entrevista exclusiva ele explica como funciona o mercado de combustível na cidade, afirma que há alinhamento de preços e que as grandes distribuidoras praticam dumping.
Ele afirma categoricamente que apenas um empresário determina os preços dos combustíveis em Londrina. ''Ele determina qual vai ser o preço mínimo que todos têm que praticar. Todo dono de posto sabe quem é ele e, se o consumidor tiver curiosidade, deve perguntar ao dono do estabelecimento em que abastece. Caso ele não queira dizer mude de posto porque ele sabe quem é'', declara. Apesar deste alinhamento, ele garante que o principal problema existente é a sonegação fiscal. A seguir acompanhe os principais trechos da entrevista:
Alinhamento de preços
''Existe um alinhamento de preços, há a necessidade de se trabalhar com um determinado preço como aconteceu dias atrás (primeira semana de julho): R$ 1,49 (álcool) e R$ 2,49 (gasolina). O que acontece quando alguém sai deste patamar estabelecido (baixa o preço)? Se um revendedor não aceita esta redução, qualquer pessoa do ramo vai passar neste posto e ter uma conversa amistosa, sem nenhum tipo de agressão ou coação para saber quais os motivos da redução. Não são gângsters, bandidos armados, não ocorre isso. Geralmente é uma pessoa bem educada, de bom trato, que pergunta o que aconteceu. Nesta conversa esta pessoa tem o diagnóstico, ou seja, vai saber se esse indivíduo vai voltar ao preço alinhado ou não. Se ele percebe que é uma tendência, automaticamente os donos de postos próximos abaixam para poder sufocar essa pessoa que teve a iniciativa de baixar, para tirar dele o volume de vendas que daria respaldo a ele trabalhar com preço mais barato. Passando mais um dia ou dois, volta uma outra pessoa e tem novamente o mesmo diálogo para ver se tira o diagnóstico. Se ele mantém o preço, a área dos postos que abaixa o valor acaba aumentando porque daí começa a contaminar outros estabelecimentos. Uma semana seria o prazo final para que o mercado voltasse a se realinhar e se não há consenso com aquele primeiro revendedor toda a cidade começa a baixar naquele preço que a pessoa está praticando. Neste ponto há tentativas desesperadas de levar os preços aos mais baixos possíveis para inviabilizar todos os estabelecimentos e, assim, voltar ao preço que seria o valor do aumento''.
Dumping
''Se depois de baixar os preços e ainda houver relutância (para subir) as grandes distribuidoras dão o golpe fatal. Elas passam a praticar preços inferiores ao de custo. E, para os que ainda estão resistentes, o mecanismo de convencimento não é físico, é o confronto financeiro. Quando a categoria já está em frangalhos as grandes distribuidoras entram e jogam o preço lá embaixo. Elas determinam que alguns revendedores, geralmente os mais próximos daquele que se rebelou primeiro, a trabalhar com o preço abaixo do custo. Aí, bate o desespero geral e até essa pessoa acaba vendo que se ela continuar daquele jeito a insolvência é fatal e aí volta-se à situação em que terão que realinhar o preço. Esta forma das distribuidoras se comportarem já foi questionada pela Justiça Federal com uma ação contra o dumping (prática usada por algumas empresas que aplicam preço abaixo do custo para quebrar a concorrência). No livre mercado, existe uma diferença de custo operacional muito grande de um posto para outro e esta liberdade privaria alguns de disputar este mercado e é onde eles insistem em trabalhar apenas no alinhamento de preços. Acredito que no máximo em 30 dias vai acontecer o dumping, a tendência é essa. E isso não acontece só em Londrina, no Brasil inteiro é assim.''
Balizadores de preços
''Em Londrina existem postos que são os balizadores de preços. São os chamados pela categoria como polêmicos: são três de um mesmo dono e mais um que costuma acompanhar. Quando estes colocam um determinado preço e se dão por satisfeitos, a cidade os acompanham em questão de horas. Ele - o dono dos três postos - impôs uma regra de trabalhar R$ 0,04 mais barato, essa foi uma medida que ele colocou há quase quatro anos e está tentando manter a duras penas porque ele também está passando por consequências. São poucos os rebelados (postos que não aceitam esta prática) porque esses 'modus operandi' é praticamente igual no Brasil inteiro, os resultados são idênticos, as consequências são as mesmas, não existe novidade. Eles (postos balizadores) tentam impor respeito, impor limites e o limite para trabalhar é R$ 1,45 e se alguém desrespeitar vai ser o caos, entendeu?''
Denúncias
''Quando os preços estão muito baixos, eles (grupo de donos de postos que estão se sentindo mais prejudicados) partem para fazer denúncias generalizadas na Receita Estadual, no Ministério Público, nos controladores do segmento para dar a entender às autoridades que ali existe uma irregularidade tão visível que todos estão percebendo. Mas é apenas uma tentativa intimidatória. Eles tentam intimidar através da aparelhagem do Estado. O setor se canibalizou.
Hoje vemos entrevistas de dirigentes sindicais e de pessoas do próprio mercado que vivem dizendo em adulteração e sonegação. Se houvesse produto adulterado era só fazer uma denúncia. O problema é que alguns acham que enxovalhar toda uma categoria vai ter a ele alguma valia. Desvio de conduta até há, como em qualquer outro segmento, mas não deve generalizar''.
Sonegação
''Com relação à sonegação, a fiscalização está batendo em cima. A Receita Estadual está tentando impedir que isso ocorra, só que tem algumas brechas que há dificuldades de cercar. Aqui em Londrina existem alguns revendedores que têm caminhão próprio, então, eles podem fazer duas viagens de combustível com a mesma nota. Quer dizer, se o fiscal não chega na hora em que ele está descarregando a primeira remessa para vistar a nota, ele pode usar da mesma nota fiscal para fazer a segunda viagem''.
Adulteração
''Em Londrina aboliu por completo essa tentativa de trabalhar com combustível adulterado devido à pressão do Ministério Público. Porque se você colocar lá 10 mil litros de gasolina adulterada isso vai ficar como prova na tua empresa durante cinco, seis ou até dez dias e ainda tem os resquícios disso no tanque. Isso ficaria muito tempo e o Ministério Público tem sido bastante ativo neste aspecto. Londrina é uma cidade muito visada, o segmento de posto de gasolina é detestado pela população


