Mercado consumidor brasileiro é mal explorado, revela estudo
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quarta-feira, 25 de abril de 2001
Agência Estado De São Paulo 
O mercado consumidor brasileiro ainda é mal explorado pelo governo e pelo empresariado de uma forma geral. Esta é a leitura mercadológica que alguns especialistas consultados pela Agência Estado fazem da pesquisa O Perfil dos Municípios Brasileiros, divulgada na semana passada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Entre outros dados, a sondagem revelou que 28% das cidades espalhadas pelo País têm favelas e que só há Guarda Municipal em 18% dos municípios. Além disso, itens relacionados a questões culturais também chamaram a atenção. Segundo o levantamento do IBGE, a televisão atinge 98,3% das cidades e as videolocadoras, 64%. Em compensação, apenas 7% das cidades contam com cinemas, 14% com teatros e 16% com museus.
Para Rubens Hannun, diretor da H2R Pesquisas Avançadas, a pesquisa evidencia o imenso contingente de pessoas que precisa de produtos e melhorias sociais. Sem dúvida, os municípios menores são uma boa oportunidade de negócio e podem até se tornar uma mina de ouro, pois há uma carência alta. O grande trunfo, no entanto, está na estratégia de mercado, destaca ele. Tem que saber fazer negócio, é uma questão de conhecer o público, entender a cidade.
Segundo Hannun, o empresariado está acostumado a pensar com a cabeça na grande cidade. Até mudarem o foco demora, admite. Hannun observa que, em 94, quando o Plano Real foi lançado, levou algum tempo para os empresários perceberem que as classes C e D haviam melhorado seu poder aquisitivo. A virada demorou, mas veio. Hoje ainda não existe uma tendência de olhar para os pequenos centros consumidores, mas pode vir a existir, sustenta.
O economista Claudio Felisoni de Angelo, coordenador geral do Programa de Administração e Varejo, da Fundação Instituto de Administração (FIA), ligada à FEA/USP, diz que a tendência das empresas interiorizarem suas atividades ainda não se firmou devido a décadas de inflação e exclusão. Mas, segundo ele, oportunidades de negócio nos municípios menores não faltam. Por mais incrível que pareça, um dos melhores mercados para a Honda, por exemplo, tem sido Sobral, no Ceará, exemplifica ele.
Segundo Felisoni, um dos exemplos clássicos que prova como a economia brasileira está concentrada nos maiores centros é o do setor supermercadista. Hoje, diz ele, o varejo como um todo movimenta cerca de R$ 120 bilhões. Desta fatia, 50% saem dos supermercados e, dentro da faixa de supermercados, 55% são movimentados pelas principais redes (Carrefour, Pão de Açúcar, Wal-Mart, Bom Preço, Sendas, Lojas Americanas e Sé), que estão concentradas principalmente nas grandes cidades.
Para o presidente da Associação Brasileira das Agências de Publicidade (ABAP), Valdir Siqueira, a pesquisa do IBGE mostra que o fosso entre a pobreza e a riqueza ainda é muito grande e que o desafio é gerar riquezas e incluir as pessoas na sociedade de consumo. Segundo ele, onde há uma economia, a propaganda é um instrumento de progresso. No entanto, ele frisa que a responsabilidade de aquecer o mercado consumidor cabe muito mais ao governo do que aos empresários.
A Sudam (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia) e a Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste), se não fossem esta barbaridade que vemos aí, seriam as unidades de fomento, diz. Se o governo melhora a distribuição de renda, ajuda os investimentos, porque o capital não tem pátria, ele vai aonde estiver dando retorno.
Por esta linha de raciocínio é que o presidente da ABAP enxerga na pesquisa do IBGE uma grande oportunidade para o governo reforçar o modelo de descentralização. Segundo ele, o Brasil não aproveita todo seu potencial de consumo. Diferentemente dos países de Primeiro Mundo, onde há consumo, mas não há contingente, nós temos contingente, mas não temos consumo. Precisamos tirar as pessoas da sociedade de sobrevivência e trazer para a sociedade de consumo, defende.


