Curitiba - Existente há 15 anos, o Mercado Comum do Sul (Mercosul) chega ao mês de julho de 2006 num ''momento chave''. A incorporação da Venezuela ao bloco econômico, associada a conflitos internos envolvendo países da América do Sul, anuncia mudanças. Mas as previsões são variadas, apesar de um ponto central comum: a personalidade do presidente venezuelano, Hugo Chávez. Determinante na análise sobre o futuro do grupo, ele é capaz de ''estremecer'' alguns setores do Brasil, mas pode significar reforço ao Mercosul, na opinião de outros.
No último dia 4, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, esteve em Caracas, na Venezuela, para a cerimônia que confirmou a adesão do país ao bloco econômico. Os presidentes da Argentina, Paraguai e Uruguai também estiveram na cerimônia, além do presidente Evo Morales, da Bolívia, que participa do Mercosul apenas como país ''associado''.
No caso da Venezuela, a participação no grupo é como país ''membro'', ou seja, tem direito a voto e deve se comprometer com o Tratado de Assunção, que criou o Mercosul em 1991. No protocolo de adesão da Venezuela está previsto, no entanto, que o país adote a Tarifa Externa Comum, eixo para os negócios comerciais, apenas em 2010.
Para o presidente do Conselho de Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Rubens Barbosa, a inclusão da Venezuela ''traz uma carga política muito grande, e que não tinha antes''. Ele argumenta que tanto os interesses de Hugo Chávez quanto de Evo Morales podem ''criar problemas mais para frente''.
A Venezuela saiu da Comunidade Andina das Nações (CAN) depois que dois membros do grupo, Colômbia e Peru, passaram a avançar nas negociações comerciais com os Estados Unidos da América (EUA). Pelos mesmos motivos, o país também chegou a sair do Grupo dos Três (G3), formado originalmente pela Colômbia e o México, além da própria Venezuela.
''Eu fico preocupado, do ponto de vista político, com a entrada dele (Hugo Chávez). Mas o governo brasileiro acha que com o Chávez dentro do Mercosul ele poderia ser, de certa maneira, contido'', acredita Barbosa. ''Agora eu tenho uma certa dificuldade em aceitar isso. Porque o Chávez e o Morales têm uma agenda própria, que não é necessariamente a agenda brasileira'', alerta.
Já para o professor José Alves Donizeth, do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB) e especialista em assuntos da América Latina, os ''arroubos nacionalistas e populistas'' do presidente venezuelano ''não é um impedimento real''. ''A política enérgica do Hugo Chávez, que pretende preservar os interesses regionais, terá uma inserção muito forte no Mercosul, será um reforço'', afirma. E acrescenta que não há motivos para temor. ''A atmosfera política trará avanço. E na prática os negócios irão se realizar'', garante.
Para o chefe do escritório do Ministério das Relações Exteriores em Curitiba, Sergio Couri, a incorporação da Venezuela segue apenas a política de expansão do bloco econômico na América do Sul, que inclusive já integrou como ''associados'' países como Chile, Peru, Colômbia e Bolívia. Mas admite que a política externa feita por Hugo Chávez é diferente das relações que o governo brasileiro costuma manter com os demais países.
A opinião também é enfatizada pelo coordenador de Assuntos do Mercosul da Secretaria de Indústria e Comércio do Paraná, Santiago Gallo. ''O Brasil tem uma postura de conciliação e não tem interesse em brigar nem com os EUA nem com a Venezuela, um país rico em petróleo e onde se tem uma liderança indiscutível, que é o presidente Hugo Chávez'', explica ele, acrescentando que o fato pode até ''gerar uma situação complexa'' para o Mercosul.

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