Mercado aposta em redução da Selic no curto prazo
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terça-feira, 24 de janeiro de 2012
Maria Regina Silva e<br>Denise Abarca <br> Agência Estado 
São Paulo - O Boletim Focus, divulgado ontem pelo Banco Central, trouxe uma mudança na sinalização do mercado em relação às expectativas para a política monetária de curto prazo, que foi sutil, mas ao mesmo tempo, intrigante. De acordo com a pesquisa do BC da qual participam cerca de cem instituições, o mercado continua prevendo redução da taxa Selic, hoje em 10,50% ao ano, em 0,50 ponto porcentual em março, mas a projeção de queda da taxa em abril foi reduzida de 0,50 ponto para 0,25 ponto porcentual, em relação à semana passada.
No entanto, os agentes seguem prevendo que o juro básico fechará 2012 em 9,50%, mesmo patamar visto no levantamento anterior. Conforme a Focus, o juro seguiria em 9,75% em maio e só cairia efetivamente para 9,50% em agosto. Para a reunião de julho, a mediana mostra Selic em 9,63%, o que revela um mercado dividido entre 9,75% e os 9,50%.
Analistas consultados creditam o fato a uma mudança de percepção sobre o cenário externo, a reforçar o sentimento de que o processo de afrouxamento da Selic está terminando, uma vez que o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, no último dia 18, trouxe um comunicado exatamente igual ao do encontro de novembro. Também não houve dados domésticos divulgados nos últimos dias fortes o suficiente para mexer nos prognósticos para a política monetária nos próximos meses.
''Houve uma mudança de percepção em relação ao comportamento dos juros no curto prazo, mais relacionada ao cenário externo'', explicou o economista-sênior do Besi Brasil, Flávio Serrano. Para ele, a repetição do comunicado do Copom aumentou chance de uma nova queda de 0,50 ponto na próxima reunião ''e o mercado já começa a antecipar que (o BC) pode interromper o processo em abril''. ''Não dá para saber se essa mediana de 0,25 ponto para abril na Focus representa apostas firmes ou efeito estatístico entre aqueles que esperam manutenção e os que preveem outro corte de 0,50 ponto'', afirmou Serrano.
Também a economista-chefe da Link Investimentos, Marianna Costa, disse que o fator determinante para a mudança nas estimativas está relacionado à perspectiva de o risco internacional ter diminuído nos últimos dias, com a economia norte-americana se afastando de uma nova recessão e a da China mostrando que terá um pouso suave. ''Até então, a Focus não tinha captado isso, porque o cenário externo era bastante ruim. Nos últimos dez dias, houve, sim, uma mudança em relação à percepção que se tem em relação à economia lá fora: confirmou-se que a China terá um 'soft landing' e que os EUA tiveram um crescimento forte no quarto trimestre, em torno de 3,00%. Mesmo que seja uma expansão baixa ao longo do ano, há um crescimento. Aliado a isso, houve a atuação da autoridade monetária na Europa, que foi uma grande mudança e que foi sentida mais claramente no mercado interbancário (de títulos europeus) que cedeu das suas máximas'', avaliou.
''Os resultados de indicadores macroeconômicos dos EUA (recentes) melhores do que o esperado, a sustentação da economia da China e a suavização da crise na Europa têm feito com que alguns economistas alterem suas projeções para condução da política monetária'', concordou Roberto Padovani, economista-chefe da Votorantim Corretora.
Vale lembrar que ''mitigar os efeitos vindos de um ambiente global mais restritivo'' tem sido o principal argumento do Banco Central para ceifar a Selic e, com a melhora vista nas condições internacionais, o mercado considera que essa justificativa tende a ser enfraquecida. ''A piora da economia internacional foi o principal vetor do BC para começar a cortar os juros e a sua melhora coloca dúvidas sobre o ajuste total'', avalia Marianna, acrescentando que o cenário traçado pelos economistas na Focus é condizente com o da Link Investimentos.


