A rentabilidade do produtor rural deve voltar a crescer com a liberação do mercado de câmbio confirmada ontem pelo Governo Federal. A afirmação foi feita ontem pelo professor da USP, Fernando Homem de Melo, ao analisar as mudanças da política de cambial. ‘‘A mudança é positiva e veio num momento adequado para agricultura, com a proximidade da colheita’’, comentou.
Homem de Melo preferiu não fazer ‘‘previsões’’ do quanto a rentabilidade do setor deve crescer, observando que o mercado ainda aguarda uma definição melhor do comportamento do câmbio. ‘‘As variações do câmbio hoje (ontem) foram grandes, dificultando qualquer previsão’’, disse.
O professor afirmou que num primeiro momento, as mudanças devem beneficiar principalmente os produtos de exportação, como soja, café, açúcar, frango, cacau e fumo. Ele lembrou que com o real desvalorizado frente ao dólar, estes produtos se tornam mais competitivos no mercado externo. ‘‘Os produtos de consumo interno, como milho, arroz e feijão também se beneficiarão, mas os ganhos serão menores’’, comentou.
Quanto às altas que os principais insumos químicos devem sofrer, uma vez que a maioria destes produtos é importado e cotado em dólar, Homem de Melo não acredita em uma anulação dos ganhos da agricultura com o real desvalorizado. ‘‘É preciso levar em conta as diferentes necessidades de insumos por produto e a composição do seu custo de produção’’, disse. Ele exemplificou com o caso do café, que tem na mão-de-obra maior peso no custo de produção, do que a utilização de defensivos, enquanto que uma cultura que exige maior investimento em insumos, tem baixo consumo de mão-de-obra.
Homem de Melo não acredita no entanto que as exportações cresçam este ano, por causa da produção que já está definida. ‘‘A colheita já está iniciando’’, comentou. No entanto, o professor afirmou que com crescimento da renda, os produtores reinvistam na produção e aumente o volume a ser colhido na safra 99/00.
Cautela Homem de Melo aconselha aos agricultores que neste momento de transição que tenham cautela para vender sua produção. ‘‘O mercado ainda é confuso. É preciso esperar que as taxas de câmbio encontrem um equilíbrio. E vender em reais ainda não é ideal’’, disse.
O consultor de mercado da Carraro Agribusiness, de Maringá, Carlos Alberto Carraro, afirmou que ontem realizou negócios no mercado de ‘‘soja verde’’ com a saca de 60 kg cotada a R$ 11,00, pagamento à vista e entrega em abril. O consultor observou que este tipo de negócio é interessante para quem está precisando de saldar compromissos. ‘‘É que neste momento os recursos nos bancos estão escassos’’, observou. Mas o consultor também não recomenda o fechamento de negócios futuros em real. ‘‘Mesmo porque os compradores também não se arriscam em pagar à vista, em dólar, sem saber como o mercado de câmbio irá ficar’’, observou.

mockup