Melhora no cenário econômico surpreende
PUBLICAÇÃO
domingo, 11 de abril de 1999
Denise Neumann Agência Estado 
Diferentes variáveis da economia terminaram o primeiro trimestre com um comportamento diferente daquele que foi estimado pelos economistas no início do ano, logo após a desvalorização do real. A velocidade com que sinais positivos foram se acumulando surpreendeu, diz Mauro Schneider, vice-presidente da área de pesquisa macroeconômica do ING Barings.
As principais diferenças entre o cenário desenhado no início do ano e o que acabou de fato ocorrendo são inflação menor, redução da volatilidade da taxa de câmbio já em março, volta dos capitais externos (era esperada, mas não tão cedo), não explosão do desemprego no primeiro bimestre e produção industrial um pouco acima do esperado.
Para Schneider, o grande gatilho da melhora de percepção foi o comportamento da inflação. O mercado não esperava que a combinação de recessão com moeda mais estável e a ação do governo nas negociações de ajustes de preços fosse ter resultados tão bons do ponto de vista da inflação, diz. E alta de preços menor que o esperado, segundo ele, abriu espaço para uma queda mais rápida dos juros. Esses juros, projetados para a frente, permitem imaginar um segundo semestre mais aquecido, avalia Schneider.
A revisão dos números do PIB, diz ele, será feita mais por conta da expectativa de um futuro melhor, do que por resultados concretos já colhidos no primeiro trimestre.
José Augusto Arantes Savasini, sócio-diretor da Rosenberg & Associados, projeta uma queda de 2,3% no PIB este ano e diz que existem razões para não contar com um resultado melhor que este. Além do comportamento fraco das exportações (prejudicadas pela recessão no Mercosul e pela queda dos preços internacionais), Savasini diz que o governo vai manter um rígido controle sobre suas contas, contribuindo para a retração no nível de atividade. Como será impossível alcançar o superávit de US$ 11 bilhões na balança comercial, o governo vai ter que cumprir direitinho as metas de déficit público, afirma o consultor da Rosenberg.
Os juros, observa, ainda são cavalares e impedem a retomada do nível de atividade. Os bancos preferem comprar títulos públicos ao invés de emprestar dinheiro para capital de giro, diz Savasini.
Mesmo quem quer exportar ou produzir para substituir importações fica sem dinheiro. Os bancos olham para trás e se essa empresa passou por dificuldades no passado, não vai receber empréstimo agora, avalia. O volume de crédito, prevê, continuará restrito.
Na avaliação do economista-chefe do Banco Santander, Dany Rappaport, o catalisador da mudança de rumo foi o acordo com o FMI. Não porque ele manteve a ajuda de US$ 40 bilhões, mas porque definiu que US$ 8 bilhões seriam utilizados em quatro meses para proteger a moeda, observa Rappaport. Isso foi o mais importante porque fez a ponte entre a retomada de confiança e os pagamentos necessários no exterior, e foi também uma vitória do BC na negociação com o Fundo.
Rappaport acha cedo para revisar os números de inflação. Embora o aumento de preços tenha ficado abaixo do esperado no primeiro trimestre, ele acredita que a retomada da atividade no segundo semestre pode abrir espaço para remarcação nos setores que agora, por conta da recessão, não conseguiram repassar elevações de custo.
O economista-chefe do Lloyds Bank, Odair Abate, já acredita que a inflação de 1999 ficará abaixo de 10%. A mesma visão é partilhada pelos economistas da Tendências, que projetam uma alta do IPC da Fipe de 9% este ano. A desacelaração econômica teve um efeito direto sobre os preços e também sobre a volta mais rápida da taxa de câmbio, observa Abate.
Como a inflação vai subir menos, o juro vai cair mais rapidamente (como já aconteceu em março), penalizando menos a renda da população e abrindo mais espaço para o consumo. Se esse quadro de inflação menor for se confirmando, o PIB deve ter uma queda menor, avalia Abate. Talvez 3% passe a ser o teto de retração. Antes ele projetava 4% de retração.
Para Roberto Padovani, da Tendências, a definição de uma política monetária e de intervenção no câmbio (flutuação suja) foram decisivas para virar o jogo da confiança.


