São Paulo - Dois anos depois de assumir um dos postos mais estratégicos do País, a ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, comanda nesta terça-feira um dos maiores negócios da história do setor elétrico no mundo. Trata-se do megaleilão de energia velha, que comercializará cerca de 60% da produção existente no País e movimentará em torno de R$ 100 bilhões. Será o primeiro grande teste do novo modelo elétrico, criado por Dilma e sua equipe. Além disso, o resultado do leilão determinará os novos rumos do setor, podendo influenciar as decisões de investimentos na expansão e definindo um novo patamar de tarifas para o consumidor brasileiro.
''O que estamos inaugurando é uma fase radicalmente distinta daquela do passado. Não será aceito, por exemplo, que geradoras e distribuidoras de um mesmo grupo econômico comercializem energia entre si e fixem o preço que quiserem pelos contratos'', explica a ministra. Segundo ela, a partir de agora a compra e venda de energia só será feita publicamente e de forma controlada pela sociedade, sem pontos obscuros.
O megaleilão de energia velha, símbolo da nova fase do setor, é uma consequência do modelo anterior, criado no governo de Fernando Henrique Cardoso, iniciado e não terminado. Durante o programa de privatização ficou definido que a partir de 2005 toda energia do País seria comercializada livremente no mercado. Para isso, foi criada uma lei que determinava a descontratação da energia do País na proporção de 25% ao ano a partir de 2002. Ninguém previu, porém, que no meio do caminho ocorresse um racionamento e, posteriormente, houvesse sobra de energia no mercado. Sem contratos e com sobras, as empresas começaram a ter problemas financeiros.
Para Dilma, o leilão resolve tanto o problema das empresas com excedente de energia como o da população, que tem direito à eletricidade barata. O grande temor do governo era que as empresas fechassem contratos com preços elevados, prejudicando a sociedade e pressionando a inflação. Mas, apesar da torcida para o sucesso do leilão, o modelo de comercialização de energia velha aquela de usinas já existentes e, em alguns casos, já amortizadas ainda causa dúvidas. Um dos principais críticos é o ex-presidente da Eletrobrás Luiz Pinguelli Rosa, diretor da Coppe, da UFRJ. Para ele, há um excedente grande de energia que será coberto por esse leilão, o que traz riscos. ''Se os preços ficarem muito baixos, as empresas, estatais ou privadas, podem ficar descapitalizadas, o que impossibilitaria o investimento na expansão do setor.''
A preocupação de Pinguelli deve-se ao fato de as estatais terem uma quantidade grande de energia no leilão de terça-feira e cujo preço médio é baixo. Na opinião dele, o certo seria o governo ter suspendido a descontratação de energia no começo do governo. ''A descontratação foi feita por causa da privatização. Portanto, não tinha mais sentido.''

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