Clóvis Rossi
Agência Folha
O megainvestidor George Soros disse ontem, em Davos, Suiça, que há ‘‘estranhos movimentos’’ no mercado norte-americano de bônus, que ‘‘poderiam estar relacionados’ a rumores sobre dificuldades financeiras de alguns ‘‘hedge funds’’. Tais fundos significam, literalmente, ‘‘fundos de proteção’’, mas, na
prática, são investimentos especulativos em cotações futuras de diversos ativos, dos juros ao ouro, por exemplo.
Um desses fundos, o ‘‘Long Term Capital Management’, quebrou há dois anos, colocando em risco todo o sistema financeiro, salvo no entanto pela
pressão do Fed (Federal Reserve), o banco central norte-americano, para
que outras instituições financeiras assumissem os custos. O risco de quebra de outro fundo agora é que ele viria na esteira de intensas discussões sobre a possibilidade de que o mercado norte-americano de ações sofra uma queda abrupta, por estar supostamente supervalorizado. Soros, no entanto, não acredita que haja de fato riscos sistêmicos.
A reportagem cobrou dele afirmação feita em 1995, na esteira da crise mexicana do ano anterior, segundo a qual o mundo poderia enfrentar uma nova crise como a de 1929.
Soros respondeu que mudara de opinião, embora, depois de sua previsão
original, a crise russa de 1998 ‘‘tenha, de fato, criado o risco de um
derretimento do sistema financeiro internacional’. Acontece, sempre segundo Soros, que o Fed agiu rapidamente na esteira da crise do Long Term Capital Management, reduzindo os juros, o que foi ‘‘o passo correto’ para evitar a ameaça ao sistema financeiro globalmente. ‘‘Presumo que, se uma nova situação do gênero se repetir, o Fed agirá de novo da mesma maneira’, completou Soros.
A confiança do megainvestidor no Fed não se estende, no entanto, às
organizações que compõem a arquitetura do sistema financeiro global. Os riscos para o sistema financeiro internacional também foram discutidos a portas fechadas, entre as autoridades governamentais presentes a Davos. Eles próprios se propuseram a seguinte pergunta: ‘‘Pode o sistema financeiro lidar com novas crises?’. A resposta foi ‘‘sim’, disse o senador norte-americano John Kerry, um dos relatores do encontro-2000. Mas o ‘‘sim’ veio acompanhado de um ‘‘mas’: desde que ‘‘não falte clareza e cooperação entre o FMI (Fundo Monetário Internacional) e o Banco Mundial’.

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