Medo provocou medidas sem precedentes
Edinelson Alves
Especial para a Folha
A partir das 10 horas da manhã de hoje, quando lá do outro lado do mundo o relógio começar a se aproximar da 0h do dia 1º de janeiro de 2000, a tensão subirá ao máximo nas grandes cidades ocidentais. Se nada de anormal acontecer na passagem de ano, ainda assim, o efeito que o Bug do Milênio já provocou com a adoção de medidas preventivas, é algo sem precedentes na história.
Se no Brasil o medo coletivo passa desapercebido, nos países que dependem totalmente da informática há uma verdadeira preparação para se enfrentar uma catástrofe mundial. Estocagem de alimentos, água e outros produtos básicos fazem parte da cesta de Ano Novo.
Um bom exemplo disso: militares da Rússia e dos Estados Unidos passarão juntos o réveillon em um centro de comando no Colorado (EUA) justamente para assegurar que nenhum dos dois lados terá mísseis disparados de seus arsenais nucleares.
Outro grande temor é de que guerrilhas tenham planos de ataque aos norte-americanos em todo o mundo. As autoridades julgam que terroristas podem aproveitar problemas ocasionados pelo bug do ano 2000. Por isso, só neste semestre, foram veiculadas mais de 50 campanhas para alertar os americanos sobre o perigo das aglomerações nas festividades dentro e fora do país.
Não é por acaso que o prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, anunciou que a polícia montou o seu QG de segurança máxima no World Trade Center, o principal edifício da cidade. Em Seatlle, na costa Oeste dos EUA, foram suspensas todas as festividades públicas devido às ameaças. Mas no oriente, o medo também é grande.
As agências internacionais divulgaram que a japonesa Setsuko Sakaguchi, que mora a 96 km ao norte de Tóquio, estocou algumas variedades de alimentos em grandes contêineres. Comprou até um forno portátil, para o caso de um blecaute ou problemas no serviço de gás. A falta de energia no hemisfério norte por algumas horas pode provocar a morte de milhares de pessoas que não conseguem sobreviver sem o sistema de aquecimento nas casas.
Confira abaixo o que o temor do Bug do Milênio já provocou:
- Segundo o Departamento de Comércio dos EUA, a conta final do bug para empresas e governo americano deve superar US$ 114 bilhões até 2001. Só em 98, foram consumidos US$ 32 bilhões.
- O Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos, encomendou 50 bilhões de dólares extras, temendo que a população entre em pânico e retire todo o dinheiro disponível nos bancos na virada do milênio. No Brasil, o Banco Central disponibilizou para os bancos mais R$ 7 bilhões para a hipótese de saques além do normal.
- Cinco milhões de pessoas trabalharão nesta noite, diz o IDC International Date Corporation. As companhias de software e serviços de computador contarão com centenas de milhares de pessoas na ativa, bem como organizações financeiras, empresas de transportes e setor de saúde.
- Por não estarem preparadas para o Bug do Milênio, 325 pequenas empresas aéreas do Brasil foram suspensas pelo DAC (Departamento de Aviação Civil), e não poderão voar no período crítico da virada do ano.
- Na Inglaterra, cerca de 20 mil terminais instalados em lojas de varejo em Londres foram incapazes, nesta semana, de processar transações com cartões de crédito porque não reconheceram a data-ano de quatro dígitos registrada na tarja magnética. Os terminais foram fabricados pela Racal Electronics e são operados pelo HSBC, o maior fornecedor dos terminais de cartões de crédito da Inglaterra.
- Em agosto último, centenas de moradores de Londres ficaram sem energia elétrica por dias devido a uma falha nos medidores de energia. Um smart card usado para medir o consumo procovou um curto-circuito nos equipamentos.
- Segundo John Koskinen, especialista em bug do governo dos EUA, uma coisa é testar os sistemas antes do ano 2000. O verdadeiro teste será na segunda-feira, quando serão feitas milhões de transações.
- Aproximadamente 45 mil vírus já foram catalogados, alguns prontos para atacar em qualquer dia de 2000. O dia 1º de janeiro é o mais arriscado.
- Nos Estados Unidos, de tanto ser procurada para dar informações sobre medidas preventivas, a Cruz Vermelha preparou uma espécie de kit de sobrevivência.





