Medo do desemprego e oferta de crédito vão determinar o consumo
Arquivo FolhaCrise brandaImpacto menor nos alimentos: gênero essencial que dispensa créditoArquivo FolhaVítima preferencialSetor de bens duráveis: primeiro a sentir o golpe da retraçãoOs setores que produzem produtos básicos, artigos para exportação e fornecem para setores de infra-estrutura recentemente privatizados (energia e telecomunicações) devem ser menos afetados pela retração da atividade econômica esperada para o próximo ano. Entre os que mais uma vez ficarão com os piores resultados estão os fabricantes de bens de consumo duráveis, cuja comercialização depende de crédito. A avaliação é de economistas e consultores envolvidos em projeções de cenários para 1999.
Alimentos e artigos básicos de vestuário devem perder menos, enquanto os itens mais sofisticados e supérfluos desses dois segmentos vão sofrer mais duramente as consequências da crise, observa Rubens Sardenberg, diretor da Linear Investimentos, especializada na gestão de recursos. Neste movimento, diz, os consumidores tendem a migrar para marcas mais baratas. E quem depende da demanda do setor público, trabalhando em obras de saneamento e construção civil, vai ser duramente afetado, acrescenta.
O mesmo não vai ocorrer com fornecedores de serviços públicos recentemente privatizados, como energia elétrica e telecomunicações. Apenas se a conjuntura piorar muito é que esses segmentos podem desacelerar investimentos e reduzir encomendas, diz. Empresas privadas, que planejaram investimentos de ampliação da capacidade ou mesmo de construção da primeira planta no País, podem dilatar seu cronograma de execução, fazendo com que o resultado de bens de capital e máquinas e equipamentos seja menos positivo que o esperado para 1998.
Em agosto, pela primeira vez em 12 meses, a indústria de bens de capital registrou retração nas vendas, segundo a última pesquisa industrial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Do ponto de vista do consumidor, a oferta de crédito e o medo do desemprego serão os grandes determinantes do consumo, pondera a economista Denise de Pasqual, da Tendências Consultoria Integrada. Os segmentos que dependem de crédito são os que mais devem sofrer as consequências da recessão, diz ela, acrescentando que quem trabalha com alimentos está entre os que menos sofrem. Mas os alimentos mais sofisticados perdem, enquanto os mais básicos perdem menos, diz.
Ela avalia que até agora as decisões de investimento já anunciadas não foram afetadas. Quem iria expandir uma unidade de produção de bem durável com o objetivo de atender o mercado no curto prazo, porém, pode adiar o projeto, pondera. Mas se a perspectiva já era de longo prazo, o projeto deve ser mantido. Para o economista Flávio Nolasco, há nichos de mercado que crescem mesmo com recessão. A situação do próximo ano, avalia, deve ser diferente do ano de 1998, quando os setores ligados a bens de investimento tiveram melhor desempenho. A avaliação de que esses setores se sairiam melhor não vale mais, observa. A causa, diz, é que a situação deste fim de ano é diferente daquela que provocou a crise de outubro de 1997.
Aquela foi uma crise de liquidez internacional que se resolveu com juros altos; hoje a crise é de confiança e por isso produz mais efeitos negativos sobre o lado real da economia, incluindo decisões de investimento, justifica.
Na avaliação de Sardenberg, os setores destinados à exportação devem ser estimulados em 1999. Apesar do menor crescimento da economia mundial, os exportadores tendem a sofrer menos por causa dos estímulos que devem ser adotados. Ele lembra que o Brasil precisa reduzir seu déficit em conta corrente. Um dos instrumentos à disposição do governo é um melhor resultado na balança comercial, seja com queda das importações, seja com aumento das vendas ao exterior.





