Medo da inflação leva país à crise cambial
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domingo, 24 de janeiro de 1999
Gabriel J. de Carvalho Agência Folha 
O Real chegou ao fim, pelo menos em sua marca registrada ao longo de quatro anos e meio: a âncora cambial. O dólar, que desde 95 vinha deslizando num ritmo suave, sob as rédeas curtas do Banco Central, foi solto no mercado e disparou. A origem mais remota da crise, entretanto, não está no real forte em relação ao dólar. É anterior. Trata-se do desafio histórico de como estabilizar economias dependentes sem tropeçar e cair. Paradoxalmente, o fracasso do Real está ligado a seu sucesso em derrubar a inflação que o precedeu em pelo menos duas décadas, e cujo combate naufragou cinco vezes, de 1986 a 1991. Foi o medo de a inflação voltar que levou o governo FHC a se apegar à âncora cambial, agora içada aos trancos. Houve acomodação política, barganhas pela reeleição e tudo o mais. Não faltaram alertas, à direita e à esquerda, sobre a bomba confeccionada pelo dólar barato.
Mas a resistência a um ajuste mais forte no câmbio veio do temor de o Real ser o sexto plano fracassado em menos de dez anos. Não só do governo, mas de boa parte da sociedade, exausta da ciranda dos preços. Isso fica patente nas discussões noticiadas durante os primeiros anos do Real. Em março de 95, na esteira da crise mexicana, o governo tentou mexer no câmbio e o mercado se agitou. As reservas caíram, o dólar valorizou-se 5% em um mês e veio a fase da desvalorização gradual. No primeiro trimestre de 95, a economia deslanchava a um ritmo de 10% ao ano, patamar próximo ao do milagre dos anos 70. Mesmo críticos da política cambial aplaudiram, à época, o sistema das minibandas. O problema era o dólar abaixo de R$ 1, considerado o pecado capital do plano. A inflação, embora cadente, permanecia como ameaça. O País ainda convivia com a indexação. Os salários tiveram o IPC-r pleno até junho de 95, numa taxa acumulada de 35,30%, metade da inflação em real em quatro anos e meio do plano.
Por negociação ou sentenças da Justiça trabalhista, foram corrigidos pela inflação integral, na data-base anual, pelo menos até 1997. Oportunidades de corrigir o câmbio foram perdidas várias vezes, acusam os críticos. A piora nas contas externas apontava para o nó cambial, enquanto os juros faziam estragos na dívida pública.
O governo continuou resistindo, com a concordância, também é bom dizer, de parte do empresariado. Comparando a uma luta de boxe, a equipe econômica achava que ganharia por pontos. Os alertas eram para inevitável nocaute. A estratégia do governo FHC previa abundância de crédito externo - para financiar os déficits das contas externas - até que as desvalorizações graduais eliminassem a defasagem do câmbio. Enquanto isso, a indústria iria ganhando competitividade, o que de fato ocorreu, apesar dos mortos e feridos do capital nacional.
Vieram, então, as crises asiática (97) e russa (98), o que fez secar a fonte do crédito internacional-críticos à esquerda diziam que isso também era inevitável. A dívida pública, inflada pelos juros na lua, assustou os estrangeiros, as reservas desabaram e o Brasil, finalmente, virou a bola da vez.
Agora que o navio afunda, é fácil dizer que o ajuste cambial deveria ter sido feito bem antes. Alguns arriscam até datas mais propícias. A crise cambial talvez tivesse sido evitada, mas quem garante que a inflação não voltaria com força? Negar esse risco é mero palpite. Não dá para voltar na história e comprovar quem tem razão. A expectativa, agora, é que o dólar se acomode em algum valor que desconte o nervosismo do primeiro momento. Muitos duvidam de um final feliz, sem moratória, mas não se descarta um novo sistema de faixas para a flutuação do dólar.
O governo avançaria no ajuste fiscal e contaria com novas parcelas dos US$ 41,5 bilhões do pacote-FMI para manter as reservas. Com o tempo, o câmbio traria fôlego às exportações para gerar os superávits necessários ao pagamento da fatura externa. Se tudo for assim, restará saber qual será o impacto do ajuste cambial na inflação. Os juros continuam altos, entre outras razões, para afastar esse risco. Só não podem durar muito mais porque estoura de vez a dívida pública.
A gravidade da crise pode ser resumida na máxima do ex-ministro Mário Henrique Simonsen: Inflação aleija, crise cambial mata. Mas a frase também ensina que, para afastar a crise pior, corre-se o risco de voltar à de sempre.


