O Banco Central baixou ontem nova medida para atrair capitais especulativos, que ingressam em busca de altos juros, e assim aliviar a pressão sobre a cotação da moeda norte-americana. Os fundos de renda fixa de capital estrangeiro receberam autorização para aplicar até 40% dos seus recursos em CDBs (Certificados de Depósito Bancário). Antes, a aplicação estava limitada a 20%.
O afrouxamento da regra amplia os ganhos potenciais dos fundos, pois dá maior liberdade para eles formarem suas carteiras. Essa é a terceira medida de incentivo aos fundos em menos de 30 dias. Antes, o governo já havia prorrogado a isenção de Imposto de Renda e reduzido de 2% para 0,5% o IOF (Imposto sobre Operações) incidente sobre esse tipo de aplicação.
Desde que o BC começou a conceder vantagens à entrada desses capitais de curto prazo, em 15 de março passado, já ingressou US$ 1,132 bilhão nos fundos. Antes das medidas, o patrimônio dos 105 fundos de capital estrangeiro em atividade somava US$ 1,343 bilhão. Em 26 de março passado, o patrimônio já havia subido a US$ 2,475 bilhões, segundo o BC.
O ingresso de capitais especulativos dirigidos aos fundos de renda fixa é responsável, em parte, pelo alívio na pressão sobre a cotação do dólar nos últimos dias. Em 26 de março, por exemplo, o patrimônio dos fundos de estrangeiros cresceu US$ 210 milhões. Naquele mesmo dia, as reservas em moeda estrangeira do BC subiram US$ 205 milhões.
Embora ajude a conter a pressão no câmbio, parte dos economistas critica a atração de capital especulativo, que é muito volátil e pode ampliar as turbulências. O próprio ex-presidente do BC Francisco Lopes fez uma autocrítica da política de atração de capitais especulativos adotada pelo governo após a crise asiática.
‘‘O capital de curto prazo é muito ruim porque entra para ganhar com juros e sai muito rápido’’, disse Lopes em setembro, logo após a crise russa, quando ainda era o diretor de Política Monetária do BC. Segundo o raciocínio de Lopes, durante a crise russa houve forte fuga de capitais especulativos do País, o que aumentou a desconfiança dos investidores sobre a situação do Brasil.
Em julho de 1998, antes da moratória russa, os fundos de renda fixa tinham um patrimônio de US$ 7,878 bilhões. A crise provocou uma fuga de US$ 5,735 bilhões dos fundos, que quatro meses depois tinham apenas US$ 2,143 bilhões. As reservas em moeda estrangeira do BC sofreram queda de US$ 691 milhões em 31 de março, devido principalmente à antecipação de pagamentos da
dívida externa.
Segundo o BC, foi antecipado um pagamento ao Clube de Paris (reúne os países credores) que estava previsto para abril. As reservas fecharam em US$ 33,863 bilhões em 31 de março.

mockup