Médicos têm que pensar no preço
Médicos têm que pensar no preço
Arquivo FolhaMiguita: Selo de garantiaArquivo FolhaCaviglione: Profusão de BOsA precariedade no fornecimento de remédios pela rede pública encarece ainda mais o tratamento dos pacientes, afirma o clínico geral, Carlo José Caviglione, que presta atendimento em um posto de saúde de Londrina. Quando um doente não tem condições de comprar um remédio e receitamos um medicamento ineficiente só porque é o único disponível, corremos o risco dele retornar com o quadro agravado. Isso também acontece quando receitamos o adequado, comprado em farmácias, e o paciente não compra porque não tem dinheiro. Às vezes, depois de três retornos, ele acaba internado e aí o sistema público gasta com as três consultas e a internação.
Com a crise econômica, além de pensar na solução para os problemas de saúde dos pacientes, os médicos têm tido que considerar também o custo dos remédios na hora de emitir as receitas. Eu priorizo a solução do problema, receitando um medicamento confiável para o caso. E antes de trocar a receita indico caminhos, como o contato com uma assistente social, que poderá ajudá-lo a conseguir o remédio, diz.
O médico diz que receita apenas 20% de medicamentos disponíveis no posto, e não há como substituir a maioria. Os antibióticos distribuídos no posto, como ampicilina e sulfa, são restritos, não podendo ser usados numa infecção urinária, exemplifica.
O cardiologista londrinense Luiz Carlos Miguita também se preocupa com os remédios ineficazes. Costumo receitar remédios éticos, de laboratórios confiáveis. Mas é óbvio que tenho que adequar a eficácia da medicação às condições financeiras do paciente. Segundo ele, os consumidores devem pesquisar preços.
O problema da substituição é que nem todos os remédios com o mesmo princípio ativo têm a mesma eficácia. Há casos que não dão certo. Ao subsitituir o remédio de pressão Renitec pelo Pressotec, vendido pela metade do preço nas farmácias, alguns cardiologistas notaram a descompensação da pressão de vários pacientes, diz. A maioria dos remédios de uso contínuo para cardíacos custa de R$ 50 a R$ 60.
Miguita costuma desconfiar de medicamentos muito mais baratos do que os similares e que não têm um trabalho de propagação junto a classe médica. Hoje em dia muita gente faz mágica no Brasil, afirma, referindo-se aos laboratórios que, utilizando o mesmo princípio ativo dos outros, conseguem fabricar remédios pela metade do preço. O Ministério Público deveria fiscalizar a qualidade do setor, com selos de garantia.
Caviglione garante que os índices de falha terapêutica de alguns remédios aumentam por conta do uso indiscriminado pela população. Outro problema, segundo ele, é o fato de alguns laboratórios apenas copiarem princípios ativos, fabricando os chamados BOs. No jargão médico, são os remédios de confiabilidade duvidosa, que geralmente têm preços mais baixos. (Cláudia Lopes)





