Os brasileiros começam a semana pagando mais caro pelos medicamentos. A partir desta segunda-feira (31), estão autorizados reajustes de até 5,06% nos preços ao consumidor final.

O cálculo do percentual de aumento anual é feito pela Cmed (Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos), com base em uma fórmula que considera a inflação medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) no período de 12 meses, encerrado em fevereiro. O resultado desse cálculo, que em 2025 foi estimado em 5,06%, corresponde ao teto que deve ser observado pelas farmacêuticas.

Sobre o índice oficial da inflação, a Cmed desconta a produtividade da indústria farmacêutica e soma os custos de produção não captados pelo IPCA. Entre eles, estão a variação cambial, as tarifas de energia elétrica e a oscilação dos preços dos insumos. O cálculo considera ainda três faixas de ajuste, de acordo com os níveis de concentração de mercado - do mais competitivo à menor concorrência.

A expectativa de empresas do setor é de que o reajuste médio fique em 3,48%, o menor índice aplicado desde 2018. Em 2024, o reajuste máximo autorizado foi de 4,5%. Entidades ligadas à saúde, no entanto, acreditam que, na prática, as variações de preço podem ser bem maiores.

A explicação para aumentos acima da média prevista é que o reajuste incide sobre o PMC (Preço Máximo ao Consumidor), que estabelece o valor máxima permitido para a venda dos medicamentos. O vice-presidente de Soluções para Prática Médica da Afya, Lélio Souza, destacou que muitos medicamentos são comercializados abaixo desse teto, permitindo variações amplas nos preços praticados pelas farmácias. A Afya é uma plataforma de comparação de preços de medicamentos, com mais de 80 redes de farmácias parceiras.

“Mesmo que o reajuste seja menor, como os 3,48% projetados, o consumidor pode encontrar diferenças expressivas nos valores, pois o preço final depende das políticas de cada farmácia. Em 2024, por exemplo, identificamos medicamentos que tiveram variações maiores que 300% ao longo do ano", afirmou.

MENOR DOS ÚLTIMOS SETE ANOS

A Cmed é o órgão da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) responsável pela regulamentação dos preços dos medicamentos. A autorização do reajuste deve ser publicada no Diário Oficial da União.

“É o menor reajuste dos últimos sete anos. Com o reajuste do salário mínimo de 7,5% neste ano, um reajuste de 3% vai ser até um ganho. Não terá um impacto tão grande (para o consumidor)“, avaliou o tesoureiro do CRF-PR (Conselho Regional de Farmácia do Paraná), Eduardo Valério.

Segundo Valério, o reajuste neste ano ficou abaixo do esperado e, com os descontos concedidos pelas farmácias, a alta deve ficar em torno de 2%.

“Para a população ficou bom, mas para as farmácias, não, porque não corrige o poder econômico delas. No ano passado, a correção (dos preços) ficou um pouco acima da inflação, mas neste ano, foi menor”, ressaltou o tesoureiro.

CONCORRÊNCIA

Embora o novo reajuste passe a valer a partir de 31 de março, não significa que todos os medicamentos terão aumento imediato. O Sindusfarma (Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos) afirma que a grande concorrência entre as empresas do setor farmacêutico regula e segura os preços dos medicamentos.

Segundo o sindicato, os fabricantes e farmácias podem optar por repassar os aumentos de forma gradual ou absorver parte dos custos. Além disso, medicamentos com o mesmo princípio ativo e para o mesmo tipo de tratamento são vendidos por diferentes empresas e em milhares de pontos de venda, o que favorece a concorrência e pode segurar os preços.

Vale ressaltar que a autorização de reajuste não se aplica aos produtos genéricos, mantendo-se como uma alternativa mais acessível para os tratamentos de saúde.

Presidente executivo do Sindusfarma, Nelson Mussolini afirma que, dependendo da reposição dos estoques e das estratégias comerciais, aumentos podem demorar meses ou até nem acontecer.

O setor farmacêutico é o único segmento de bens de consumo da economia brasileira submetido ao controle de preços. As indústrias farmacêuticas estão autorizadas a fazer reajustes em seus produtos somente uma vez por ano.

Em nota, o Sindusfarma diz que, no marco do atual modelo de controle de preços de medicamentos, "as empresas do setor têm notórias dificuldades para equilibrar suas contas. Na série histórica, o reajuste acumulado de preços de medicamentos está abaixo da inflação geral (IPCA)”.

COMO ECONOMIZAR

A alta dos medicamentos atinge toda a população brasileira, mas afeta, principalmente, os pacientes em tratamento de doenças crônicas, especialmente os menos favorecidos economicamente. Obrigados a comprar os remédios mensalmente, algumas dicas podem ajudá-los a reduzir o impacto financeiro provocado pela alta.

Optar por genéricos ou biossimilares, mais acessíveis financeiramente e com eficácia comprovada, comparar preços, aproveitar programas de desconto e de fidelidade oferecidos por laboratórios e farmácias e aderir a programas de governo, podem ajudar a minimizar os efeitos da alta no bolso dos consumidores. O Farmácia Popular, do governo federal, oferece medicamentos gratuitos ou com descontos para diversas condições de saúde.

Comprar em maior quantidade se o medicamento tiver validade longa e for de uso contínuo e recorrer à assistência farmacêutica no SUS (Sistema Único de Saúde), que mantém unidades que disponibilizam gratuitamente diversos medicamentos essenciais, são outras formas de economizar.

De acordo com a Afya, plataforma que compara preços de medicamentos, o reajuste dos medicamentos pode variar conforme a concorrência no mercado. Quanto maior a oferta de um determinado remédio, menor tende a ser o aumento autorizado. Isso acontece principalmente com genéricos e similares sem patente, que possuem preços mais competitivos. Já medicamentos patenteados ou com poucas alternativas disponíveis podem sofrer reajustes mais elevados.

"O comprometimento da renda com medicamentos pode levar à interrupção de tratamentos essenciais, agravando condições de saúde e aumentando a demanda por serviços médicos", disse o médio e professor de Clínica Médica e Medicina de Família e Comunidade da Facimpa/Afya, Isaac Ramos. (Com Folhapress e assessoria da Afya)

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