Média empresa é candidata à extinção
O varejo especializado em eletroeletrônicos vai estar polarizado, a médio prazo, em dois modelos de empresas: grandes redes nacionais e companhias regionais de pequeno porte, com faturamento anual na faixa de R$ 120 milhões. Esse é o prognóstico traçado por consultores especializados. Eles acreditam que o caminho inevitável para médias empresas é associar-se às gigantes do setor.
A tendência é a rede nacional grande comprar a de porte médio, prevê o sócio-diretor da consultoria Gouvêa de Souza & M.D., Luiz Fernando Biasetto. Segundo outro especialista de varejo de uma grande empresa de consultoria, que prefere não ser identificado, a média empresa vai ficar espremida entre esses dois modelos de companhia. No seu prognóstico, cerca de duas a três empresas irão concentrar as vendas de eletroletrônicos nos grandes centros, enquanto as companhias de pequeno porte terão espaço garantido nas cidades menores, com população em torno de 70 mil habitantes. Nos Estados Unidos, esse processo de consolidação já ocorreu, lembra.
Para Biasetto, é improvável que empresas estrangeiras se interessem por redes brasileiras que passam hoje por dificuldades. Essa avaliação é compartilhada pelo analista de varejo do Tudor Asset Management, Renato do Amaral Figueiredo.
A falta de motivação das companhias estrangeiras pelo Brasil nesse segmento do varejo, argumenta Biasetto, é que lá fora elas não estão familiarizadas com a operação de crédito direto ao consumidor da forma que é realizada no nosso mercado. As vendas a prazo no exterior são feitas por meio de cartões de crédito, explica.
Na análise de Figueiredo, também o fato de a estabilidade econômica ser um processo recente no Brasil, sujeito às turbulências externas cujo ajuste recai sobre taxas de juros e o consumo, desestimula a entrada de grandes varejistas de eletroletrônicos. É que o crédito tem sido o combustível das vendas do setor.
Prova disso é que os empresários e profissionais do setor atribuem o tombo de vendas de eletroeletrônicos registrado no ano passado à alta dos juros. O mercado mudou da água para o vinho, afirma o economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), Emílio Alfieri, lembrando que, em maio de 1997, antes do pico da crise asiática que fez o governo dobrar os juros, o número de consultas para venda a prazo era 40% maior que em igual período de 1996. Neste ano, no entanto, o acréscimo foi de 4,8% sobre maio de 1997.
A conjuntura desfavorável de vendas não explica sozinha os problemas enfrentados por algumas redes varejistas, segundo avaliação de especialistas. Com a queda nas vendas, os problemas operacionais das empresas começaram a aparecer, diz Biasetto. Ele argumenta que o volume expressivo de faturamento era suficiente para mascarar os pontos falhos, como na época da inflação alta, quando os ganhos financeiros encobriam a ineficência.
Animadas com a explosão de consumo de bens duráveis proporcionada pelo Plano Real, as cinco maiores redes de varejo de eletrodomésticos expandiram o número de funcionários entre 1995 e 1997, chegando ampliar em até 40% as contratações. Mas, de acordo com cálculos de especialistas, paralelamente a essa expansão, os empresários do setor realizaram melhorias operacionais de forma mais tímida.
A guinada num mercado que crescia a taxas de 20% ao ano desde de 1995 ocorreu bem antes que os empresários sonhavam. Em 1997, as vendas industriais da linha branca caíram 15% e da linha marrom, quase 10% na comparação com 1996. No primeiro quadrimestre deste ano a crise ampliou-se, com o agravamento do desemprego e da inadimplência. Os volumes comercializados da linha branca recuaram 30% e da linha marrom cerca de 20% em relação ao primeiro quadrimestre de 1997.
Pressionadas pelo fraco desempenho e pela concorrência dos hipermercados, que elevaram de 5% para 6,5% a sua fatia de vendas de eletrodomésticos nos últimos 18 meses, as redes varejistas entraram numa guerra de preços e prazos, aumentando o risco de crédito das empresas. O resultado é que a inadimplência do comércio atingiu as indústrias que acumulam até agora créditos pendentes superiores a R$ 1 bilhão por conta dos atrasos da Arapuã e de concordatas de redes médias requeridas desde o início deste ano.Arquivo FolhaEm queda livreMercado que crescia 20% ao ano teve guinada rápida: em 97 as vendas encolheram e a tendência está sendo mantida
Agência Estado





