O ex-diretor de Fiscalização do Banco Central Cláudio Mauch disse ontem, em Porto Alegre, que o BC ‘‘fez o que entendeu ser sua obrigação, dentro da normalidade legal exigida do setor público’’, referindo-se à venda de dólar barato ao banco Marka e a outras instituições que quebraram na desvalorização do real e obtiveram vantagem com a operação.
Segundo Mauch, a operação foi aprovada por unanimidade pela diretoria do BC e também passou pela avaliação do departamento jurídico do banco. ‘‘Foram operações submetidas à diretoria, que as aprovou. Todas têm pareceres jurídicos que as definem como legais e dentro da competência do Banco Central’’.
Mauch declarou que a diretoria, na ocasião, decidiu dar ‘‘liquidez ao mercado’’ para evitar que houvesse ‘‘uma reação em cadeia’’ devido ao ‘‘nervosismo’’ que afetava o mercado. A preocupação oficial, conforme ele, era com a defesa do real, com a necessidade de impedir a desvalorização da moeda.
De acordo com o deputado Aloizio Mercadante (PT-SP), que denunciou o caso na Câmara, houve uma injeção de R$ 1,593 bilhão em recursos públicos no Marka. Ele disse que o Marka havia vendido dólares no mercado futuro a uma taxa de R$ 1,22.
Com a flutuação do câmbio, a cotação do dólar subiu. Isso representou prejuízo ao Marka, que estava obrigado a vender barato dólares que tinham preço bem mais alto. Segundo o deputado, o BC, então, vendeu dólar a R$ 1,27 ao Marka, abaixo da taxa de mercado. O Marka obteve lucro na operação e o BC teve prejuízo.
Mauch, que é funcionário de carreira do BC e se aposentou recentemente, disse que nunca manteve encontro com o controlador do Marka, Salvatore Cacciola. O ex-diretor de Fiscalização, entrevistado ontem, declarou que ‘‘apareceram versões fantasiosas’’ para seu pedido de afastamento da diretoria.
Ele disse que, em setembro passado, já havia avisado o então presidente do BC, Gustavo Franco, de que não continuaria no cargo se o presidente Fernando Henrique fosse reeleito. Em 14 de janeiro, um dia após a demissão de Franco, Mauch disse ter comunicado que só ficaria no cargo até o BC escolher seu sucessor.
Há seis anos em Brasília, ele disse que o cargo impunha ‘‘sacrifícios’’ a sua família. ‘‘Felizmente, estou de volta a Porto Alegre. No momento, vivendo uma quarentena voluntária. Depois, vou ver o que faço’’.
O ex-diretor disse que sua saída da diretoria do BC não está ligada ao caso Marka, embora os dois fatos tenham ocorrido na mesma época.

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