Matar gado para jogar fora é um absurdo
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sexta-feira, 17 de março de 2006
Fernanda Mazzini<br>Reportagem Local 
''É uma barbaridade. Matar gado para jogar fora é um absurdo.'' Com essa frase o pecuarista André Carioba, proprietário da Fazenda Cachoeira, em São Sebastião da Amoreira (47 km ao sul de Cornélio Procópio), expressou o seu sentimento sobre o sacrifício sanitário de 1.810 bovinos que está sendo realizado na propriedade. Carioba recebeu a reportagem da Folha ontem com exclusividade. Na sua opinião, os abates são um ''ato de desrespeito do governo, que forçou toda essa situação''. Somente na Cachoeira, cerca de 800 toneladas de carcaças serão enterradas.
A Fazenda Cachoeira foi a primeira propriedade do Paraná a ser confirmada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) como foco de febre aftosa. A divulgação ocorreu no dia 6 de dezembro. Com uma ação judicial ainda em andamento, em que o Mapa não conseguiu provar efetivamente a ocorrência da doença na propriedade, o sacrifício do rebanho foi aceito sob uma condição: realização da necropsia em alguns animais. Agora, além da indignação, o sentimento que surge nos pecuaristas é a justiça.
A necropsia terá condições de provar se os bovinos desenvolveram a doença, se apenas foram infectados pelo vírus ou se sequer tiveram contato com vírus. A espera pelos resultados demora mais um pouco: de dois a três meses, segundo o Centro Pan-americano de Febre Aftosa (Panaftosa), onde os exames serão realizados. Esse período pode não significar muita coisa, uma vez que desde outubro os pecuaristas estão com suas fazendas interditadas. O problema da aftosa no Estado demorou mais de quatro longos meses para ser resolvido.
''A necropsia foi a condição para aceitarmos esse absurdo. Isso (o sacrifício) não importa mais e a indenização (estimada em R$ 1,285 milhão) não vai trazer de volta toda essa situação que vivemos. Essa é a imagem do desperdício de dinheiro, de uma coisa que não precisaria estar acontecendo'', salienta o pecuarista. Segundo ele, todos os moradores da fazenda (cerca de 100 pessoas) receberam a notícia com tristeza. Quatro vacas que abastecem as famílias com leite também serão mortas. Leite da fazenda só daqui a dois meses, depois do período de vazio sanitário.
Na sua opinião, o sacrifício sanitário não pode ser comparado com nada, com nenhuma outra situação. ''Ainda que no frigorífico o boi demore mais para morrer, ele vai servir de alimento, faz parte de uma cadeia alimentar. Aqui não, ele será jogado fora'', diz. Segundo ele, depois de prontos os exames de necropsia, a briga com o governo será acirrada. ''Vamos lutar para que isso (a confirmação dos focos e os sacrifícios) não aconteçam mais dessa forma. O ministério (Mapa) agiu de má-fé, não cumpriu acordos. Tudo é um aprendizado, e aprendemos a não sermos mais ludibriados. Coleta de material para exames, daqui para frente só com a presença de sinais clínicos nos animais''.


