O Brasil dos anos 90 foi caracterizado pela persistência da instabilidade macroeconômica, em razão do prolongamento e da intensificação de distorções surgidas na década anterior, fruto de uma política econômica centrada em ajustes recessivos determinados pela crise da dívida externa, implicando na contenção e no controle das importações (através de providências não tarifárias como a lei do similar nacional) e no estímulo às exportações.
Mesmo diante da necessidade de gerenciamento (e convivência) de um ambiente cronicamente desfavorável, a economia brasileira gerou um embrião de relevantes mudanças estruturais na década de 90, tangenciadas por um primeiro ciclo de reformas que englobou a abertura comercial, a reestruturação do sistema financeiro, a flexibilização de alguns monopólios, a aceleração das privatizações e a regulamentação das concessões dos serviços públicos.
Em linhas gerais, as grandes marcas econômicas, algumas antagônicas e outras complementares, do Brasil dos anos 90 foram:
a) a profunda recessão dos primeiros anos (1990-1992), derivada dos reflexos dos fracassados Planos Collor I e II;
b) a substancial reestruturação produtiva, rotulada por alguns estudiosos como ‘‘modernização conservadora’’, como resposta à exaustão do modelo de substituição de importações;
e c) a estabilização monetária.
Tratando superficialmente de cada uma delas, convém sublinhar o atrelamento da marca recessiva aos dois planos de estabilização do Brasil Novo (apelido da era Collor). O Plano Collor I, editado em março de 1990, conjugava a retenção de haveres financeiros (depósitos à vista e aplicações) com prefixação dos reajustes de preços e salários, câmbio flutuante, tributação ampliada sobre aplicações e drástica redução de gastos públicos.
No entanto, o clima de incerteza e de exacerbação das expectativas negativas, decorrente do confisco monetário, e o descontrole da liquidez associado à crescente e quase generalização das liberações dos recursos represados para segmentos com maior poder de mercado, provocaram rápido recrudescimento da inflação e o lançamento do Plano Collor II, em janeiro de 1991. O novo programa englobou congelamento de preços e de salários, unificação das datas-base de reajustes salariais e outras medidas de austeridade monetária e fiscal.
A pronunciada contração econômica demarcada pela queda acumulada de quase 10% do PIB entre 1990 e 1992, pelo aumento do desemprego e pelo declínio dos salários reais, somada ao malogro dos planos de estabilização, ao desgaste governamental com os efeitos negativos do confisco dos ativos e os inúmeros casos de malversação de recursos públicos identificados, desembocaram no impeachment e na deposição do Presidente da República em outubro de 1992.
Já o sinal de reestruturação produtiva assumiu peculiaridades defensivas, sugestivamente análogas à ‘‘modernização conservadora’’, termo utilizado originalmente pelo historiador Barrington Moore para explicar a estratégia autoritária de desenvolvimento do capitalismo tardio do século XIX, especialmente da Alemanha e do Japão. A consecução dessa modernização obedeceu aos princípios gerais que nortearam as grandes mudanças econômicas verificadas nos países latino-americanos, que priorizavam o tripé formado pelo aprofundamento das privatizações, pela abertura da economia e pela desregulamentação dos mercados.
A terceira marca transformadora dos anos 90 compreendeu o êxito na implementação de um programa de ajustamento antinflacionário, a partir de julho 1994, promovendo a abrupta queda da inflação e a desindexação da economia, depois de várias tentativas frustadas (ortodoxas, heterodoxas e híbridas) de controle da inflação, desde o início dos anos 80.
Contudo, a sustentação da estabilidade inflacionária no binômio juros altos e câmbio defasado (reforçados pela eliminação das barreiras comerciais) acabou por aprofundar o desequilíbrio das contas externas e internas do país, sacrificando suas chances de retomada do crescimento.

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