São Paulo - Ninguém ficou surpreso com a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter inalterada a Selic em 18,5% ao ano, mas também ninguém parece ter gostado. Todo o mercado financeiro reagiu muito mal ao anúncio (no caso específico dos juros, houve forte alta no mercado de taxas futuras). Mas a reação não ficou restrita ao mundo das finanças: várias entidades representativas de setores diversos da economia criticaram a decisão. Caso da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), uma das primeiras a se manifestar em nota oficial, afirmando que o comitê atribuiu ‘‘peso irrelevante ao que se passa com a atividade econômica’’.
A manutenção dos juros, em nível considerado elevadíssimo, nada faz para melhorar a situação da economia, praticamente estagnada. Ao contrário, com a inflação em desaceleração, só produz alta dos juros reais, o que reforça para qualquer empresário a idéia de que não há espaço para investir.
Para a Fiesp, a atual política monetária é ‘‘excessivamente contracionista’’ e provoca alto custo sobre a produção e o emprego. ‘‘As parcas expectativas positivas começam a ser revistas. A esperança que fica é a nossa seleção trazer a taça para casa’’, disse o presidente da entidade, Horácio Lafer Piva, referindo-se à Copa do Mundo.
Justamente ontem, ao final da manhã, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou revisão, para pior, de suas projeções. Da previsão anterior de queda de 0,6% no PIB do primeiro trimestre, o Ipea passou a estimar queda maior, de 1,6%. Para o ano de 2002 como um todo, a previsão da instituição é de que o PIB crescerá 2%; a previsão anterior era de 2,5%.
A revisão mais acentuada em relação ao primeiro trimestre foi feita na projeção da atividade industrial. Estima-se agora uma queda de 5,5%, ante previsão anterior de 3,6%.
A Associação Brasileira das Companhias Abertas (Abrasca) também questionou a manutenção dos juros. Segundo o presidente da entidade, Alfried Plöger, a decisão demonstra que a preocupação número um do governo é segurar a inflação e que não há interesse em fazer com que o mercado de capitais cresça. De acordo com ele, o juro básico de 18,5% ao ano resulta, na ponta dos empréstimos, em taxas de 40% a 60% ao ano. ‘‘Não há atividade produtiva que dê retorno que pague esses juros dos empréstimos. Essas taxas somente são superadas em países em crise, como a Argentina’’, disse.
A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) foi outra voz a criticar a decisão. Segundo seu presidente, Luiz Carlos Delben Leite, ‘‘é um sinal ruim’’, ‘‘tromba com os interesses nacionais’’ e é ‘‘um excesso de cautela’’.

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