Mantega marca política econômica
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sábado, 23 de junho de 2007
Fernando Dantas<br>Agência Estado 
Rio - O ministro da Fazenda, Guido Mantega, ganhou a disputa sobre os rumos da política econômica, conseguindo impor a sua visão contrária à ortodoxia que prevaleceu durante a gestão do seu antecessor, Antônio Palocci, que saiu em março de 2006.
Decidido desde o início a dar uma guinada na economia, Mantega atuou com habilidade e discrição nos bastidores e hoje exerce plenamente o papel antes desempenhado por Palocci, de influenciar de forma decisiva a visão econômica do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Nas últimas semanas, surgiram sinais de que mesmo o Banco Central (BC), comandado por Henrique Meirelles - visto como o último baluarte da ortodoxia no governo -, está caminhando na direção de uma posição menos conservadora e mais alinhada com a visão de Guido Mantega.
Mas a maior vitória recente do ministro da Fazenda foi a declaração de Lula de que está pendendo para a decisão de manter a meta de inflação em 4,5% em 2009. Essa é exatamente a posição de Mantega, enquanto o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, defendeu publicamente a meta de 4%. E, embora Meirelles não tenha se pronunciado de forma definitiva sobre o assunto, a percepção geral é de que se alinha com Bernardo.
É difícil, na verdade, identificar as digitais de Mantega nessas mudanças. Meirelles é muito cioso da sua autoridade sobre um BC operacionalmente autônomo (na prática, mas não em lei) para que aceitasse uma ingerência direta do Ministro da Fazenda. Mas, dada a crescente influência desse último junto a Lula, não é implausível pensar que o presidente do BC tenha, pelo menos, levado em conta a oposição de Mantega à montagem de novo um Comitê de Política Monetária (Copom) dominado por conservadores.
Houve uma virada numa direção menos conservadora nas duas últimas reuniões do Copom. Na de abril, o corte foi de apenas 0,25 ponto porcentual, com um placar de quatro votos a três a favor de 0,50. Em junho, o corte de 0,50 venceu por cinco votos a dois a favor de 0,25. No mercado, a visão é de que a mudança do voto de Meirelles (que teria sido de 0,25 em abril e de 0,50 em junho) teria sido decisiva em ambas as situações e a posição de Mesquita prevaleceu na primeira reunião e foi derrotada na segunda.
Em relação à manutenção da meta de inflação em 4,5% em 2009 (o assunto ainda não foi formalmente decidido e no mercado há quem ainda alimente esperança de uma surpresa), um incômodo particular para os ortodoxos é o argumento de Mantega e Lula de que não se deve sacrificar o crescimento por um combate excessivamente rigoroso à inflação.
Márcio Garcia, professor do Departamento de Economia da PUC-Rio, observa que os altos juros praticados pelo Copom em 2004 e 2005 foram necessários, entre outros fatores, porque o mercado acreditava que a inflação seria mais alta que os 5,1% anunciados pelo BC.
Ele nota que BC conquistou credibilidade e as atuais expectativas de médio prazo da inflação estão abaixo de 4%. Garcia acha que as declarações de Lula e Mantega podem elevar as expectativas de inflação e impedir que o BC reduza tanto os juros quanto seria possível se elas permanecessem onde estão. ''É um belo tiro no pé'', critica.
Na corrente oposta, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e próximo a Mantega, diz que ''a idéia de se mexer na meta da inflação é sem sentido para um País que está crescendo tão pouco''.
Já Alexandre Póvoa, diretor do Modal Asset Management, tem uma visão intermediária. Prefere que a meta de 2009 seja fixada em 4,25%, com uma redução da margem de tolerância de 2,5 para 1,5 ponto porcentual.
Além da questão da meta, o comportamento do BC é outra fonte de preocupação para os ortodoxos. Economistas como Schwartsman e Olivares identificam na última decisão do Copom uma espécie de aposta na continuidade e até na intensificação de um cenário internacional extremamente positivo para o Brasil - uma atitude que julgam arriscada demais para o Banco Central.


