O ministro da Fazenda, Pedro Malan, já realizou muitas missões difíceis junto aos bancos credores do Brasil e investidores privados nas várias funções oficiais que ocupou nos últimos dez anos. Incumbido, no início de 93, de renegociar a dívida externa, ele se sentou à mesa com os representantes do grande capital internacional tendo por trás um Brasil no fundo do poço.
Naquela oportunidade, a hipótese de o Brasil vir a adotar um programa racional de política econômica para acabar com a inflação era uma miragem. Mas pouco mais de um ano mais tarde, graças em grande parte à persistência de Malan, o Brasil assinou um acordo definitivo com os credores, encerrando o custoso capítulo da história das relações do País com o mercado financeiro que começara sete anos anos com a decretação da moratória da dívida externa.
Nos próximos oito dias, o ministro da Fazenda visitará os quatro maiores centros financeiros do Ocidente com uma missão igualmente complicada.
Quase impossível Ele precisa convencer os bancos e investidores privados a não cortar suas linhas de crédito e as aplicações que têm no Brasil e a aumentá-las no ano que vem. Sem isso, o empréstimo de US$ 42 bilhões prometido na semana passada pelo Fundo Monetário Internacional seria de pouca serventia, pois o País não teria como fechar suas contas externas em 1999 e resvalaria para uma crise tão séria como a que levou à suspensão dos pagamentos externos em 1987, com uma agravante: um colapso do Brasil realimentaria a crise de confiança dos investidores nos mercados emergentes e, com toda probabilidade, empurraria o mundo para uma recessão.
Malan inicia sua pregação nesta segunda-feira, em Nova York, com uma série de encontros reservados com altos executivos do mercado financeiro.
Terça-feira ele faz uma apresentação pública e responde às perguntas dos jornalistas. Na quarta-feira, estará em Frankfurt, onde repetirá a dose e terá encontro com o presidente do Banco Central da Alemanha, Hans Tietmeyer, e com o novo ministro das Finanças, Oskar LaFontaine. De lá, vai a Paris, para mais encontros com investidores e autoridades na sexta-feira. Londres será a última escala da viagem, que termina na terça-feira da semana que vem.
Em comparação com experiências passadas, nenhum outro ministro da Fazenda do Brasil esteve em posição mais forte ao iniciar esse tipo de missão. Malan falará, desta vez, em nome de um presidente reeleito com um mandato para atacar o desequilíbrio fiscal brasileiro, o problema crônico que tornou o País vulnerável às turbulências nos mercados de capitais e afujentou os investidores.
Ele chega para as conversas com os investidores tendo por trás uma economia estável, um País que tem mais de US$ 40 bilhões de reservas cambiais, antecipou-se à crise e conta agora com o respaldo de um acordo com o Fundo Monetário Internacional que lhe dará acesso a até US$ 37 bilhões em recursos oficiais, no ano que vem, se honrar os compromissos de ajuste fiscal que assumiu com a comunidade internacional.
Desvalorização O crédito ‘‘remove o medo de uma desvalorização e o medo de que o Brasil não pagará suas obrigações externas’’, disse Peter West, principal economista para a América Latina da BBV Securities, de Londres. Os vencimentos externos dos setores público e privado somam US$ 25 bilhões em 1999.
Afastadas as razões que alimentavam a ansiedade dos investidores, agora Malan tem um início de resultado doméstico também a exibir aos investidores e pode apontar a reforma da Previdência para justificar sua confiança na disposição do Congresso de endossar o programa de estabilização fiscal apresentado pelo executivo. O ministro e seus interlocures nos EUA e na Europa sabem, ainda, que o governo tem uma outra poderosa arma operando a favor de uma rigorosa execução do duro ajuste das contas públicas brasileiras: a total falta de alternativa.
Ainda assim, sua mensagem será recebida com cautela nos meios financeiros, segundo executivos de Wall Street. ‘‘A reação do mercado ao apelo do ministro será construtiva, mas virá acompanhada de uma atitude de ver para crer’’, disse Arturo Porzecanksi, economista-chefe do banco de investimentos ING Barings.
‘‘O mercado vinha melhorando sua disposição em relação ao Brasil nas últimas semanas e já contava com um acordo com o FMI, nos termos em que ele foi apresentado, o que explica o fato de a reação, embora positiva, não ter sido tão efusiva como provavelmente esperavam o governo brasileiro e certamente esperava o departamento do Tesouro’’, acrescentou ele.
Segundo o economista, a pressão sobre os bancos
brasileiros para repagar suas linhas de crédito comercial, que atingiu o auge no final de setembro, início de outubro, diminuiu de forma considerável depois dos cortes de juros nos EUA e na Europa, do início do saneamento do sistema financeiro no Japão e do anúncio do programa de estabilização fiscal do Brasil.
‘‘Mas para avançar, as autoridades terão que manter o foco das atenções firmemente em Brasília’’, disse Porzecanksi. O economista calcula que o Brasil receberá pelo menos US$ 20 bilhões em investimentos estrangeiros diretos em 1999 mas prevê uma volta lenta das aplicações em bolsa e das linhas de crédito comercial. ‘‘Será necessário um elemento surpresa que não existiu no acordo com o FMI para produzir um impacto (que leve a uma restauração mais rápida da confiança e ao retorno dos fluxos de capitais)’, disse ele.
Congresso Porzecanski acredita que o Congresso pode gerar essa surpresa ‘‘na velocidade ou no grau de apoio com que aprovar as medidas’’. O executivo do ING Barings disse também que o executivo ajudará a amplificar um elemento de surpresa aplicando vários aspectos do plano fiscal de forma acelerada e/ou ampliando o programa de privatização.
Armínio Fraga, diretor do Soros Investment Fund, concorda que a chave do sucesso está nas mãos dos deputados e senadores brasileiros, ‘‘O programa com o FMI e o crédito dado ao Brasil aumentaram a confiança, mas ainda há um certo medo, por causa das más experiências passadas’’, disse ele.
‘‘O fundamental é deixar claro que há da parte das autoridades brasileiras uma completa compreensão sobre a gravidade da situação e do que precisa ser feito, porque isso deixa as coisas nos termos em que elas devem estar no mercado, ou seja, criam uma disposição positiva dos investidores à espera das notícias da frente de batalha, que está em Brasília’’.

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