do Rio de Janeiro
O ministro da Fazenda, Pedro Malan, assegurou ontem que o governo não tomará medidas para frear o crescimento do consumo. ‘‘Não temos e não teremos aquecimento da economia’’, garantiu. Ele disse que neste primeiro semestre a economia vai se expandir bastante em relação aos primeiros seis meses do ano passado, mas somente porque o nível de atividade naquela época estava baixo. Já no segundo semestre as taxas de crescimento serão bem modestas em comparação com as registradas no segundo semestre de 1996, porque a economia estava então com desempenho muito bom. ‘‘Haverá uma acomodação natural do crescimento ao longo do ano e terminaremos 1997 com uma expansão econômica entre 4% e 5%’’, disse o ministro, para quem 4,5% é ‘‘um bom número’’.
Malan, que participou ontem da cerimônia de posse do presidente do Bank of America, Joel Korn, na presidência da Câmara de Comércio Americana, se disse perplexo com a quantidade de vezes que já lhe indagaram, ultimamente, sobre freios no consumo e, consequentemente, na economia. ‘‘Creio que já me perguntaram isso umas 39 vezes e 39 vezes eu respondi que não, que não teremos medidas para restringir o consumo, pois não há qualquer sinal de que a economia esteja aquecida ou que vá se aquecer’’.
O ministro destacou que, com o crescimento que o País registrará este ano, os brasileiros terão o sexto ano consecutivo de elevação do Produto Interno Bruto (PIB - soma de bens, mercadorias e serviços produzidos pelo País) per capita. Uma tal sequência de expansão, lembrou, ocorreu somente nos anos 70. Ele disse ainda que desde março de 1994, quando foi lançada a Unidade Real de Valor (URV), a cesta básica, medida pelo Procon em conjunto com o Departamento Intersindical de Estudos e Estatísticas Sócio-Econômicas (Dieese) encareceu apenas R$ 1,32. ‘‘O País tem graves problemas de distribuição de renda, que não podem ser resolvidos da noite para o dia, mas a vida dos brasileiros está melhorando’’, assinalou.
Demonstrando impaciência, o ministro qualificou de ‘‘adeptos da síndrome do sobressalto’’ os que falam na iminência de medidas para conter o consumo e também os que interpretaram mal declarações suas sobre aperfeiçoamentos na banda cambial, há poucas semanas. ‘‘Estamos aperfeiçoando a banda cambial há dois anos e vamos continuar a fazê-lo por muitos anos’’, destacou o ministro, acrescentando que a palavra aperfeiçoar ‘‘significa exatamente aperfeiçoar’’, e não mudar. ‘‘Os que gostam de acordar o leitor de manhã com um soco no peito interpretaram erradamente o que eu disse’’.
Segundo Malan, não importa o que se diga, o governo não vai, nunca, fazer os seguintes ‘‘arranjos cambiais’’: adoção do sistema argentino; taxa fixa por período longo de tempo, seguida por maxidesvalorização; sistema de taxas totalmente flutuantes, sem intervenção do Banco Central; prefixação do custo futuro do câmbio; e ajustes diários. ‘‘Ninguém está autorizado a dizer que vou mudar o sistema cambial’’, reforçou.
Outro ponto que o ministro também tratou com irritação foi o do déficit em conta corrente (balança comercial, mais serviços de dívidas) no balanço de pagamentos do País, de 3,2% do PIB. De acordo com Malan, boa parte deste déficit financiou-se ao longo do ano com recursos estrangeiros que entraram no Brasil para investimentos produtivos. Como citou, a Austrália, por exemplo, tem déficit de 5,3% e isso não é um desastre. O déficit da balança comercial, deixou claro, se não se eternizar, igualmente não é problema. O ministro fez questão de lembrar que de 1984 a 1994 o Brasil teve superávit comércial médio de US$ 13 bilhões, e no entanto o País e os brasileiros estavam em péssima situação. Em 1988, citou ainda, o superávit comercial foi de US$ 19 bilhões. A inflação, em compensação, superou 1.000% ao ano e houve queda do PIB per capita. ‘‘Estávamos melhor então?’’, indagou.

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