Malan descarta desvalorização do real
PUBLICAÇÃO
domingo, 04 de outubro de 1998
Agência Estado 
Depois de três dias de absoluto silêncio, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, procurou ontem acalmar os mercados e reduzir expectativas sobre mudanças no rumo da política econômica depois da reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso. Em três discursos para autoridades e investidores, Malan descartou quaisquer alterações na política cambial e na taxação de saída do capital externo.
Indiretamente, ele buscou minimizar versões sobre o fechamento iminente de um acordo entre o Brasil e o Fundo Monetário Internacional (FMI), admitindo que há uma negociação em curso. Não estamos vivendo uma operação de resgate, afirmou. Esta é uma oportunidade histórica para uma operação preventiva contra crises.
O ministro foi enfático ao negar ações que surpreendam o mercado. Não haverá maxi nem midi, nem flutuação de câmbio, disse. Definitivamente, nós não vamos impor qualquer controle à saída de capital.
Malan procurou afastar também a síndrome do Dia D - uma expectativa exagerada sobre a existência de um conjunto de medidas que alteraria repentinamente a atual avaliação negativa que os investidores fazem da economia brasileira. Citando o presidente do Iraque, Saddam Hussein, o ministro disse que não haverá a mãe de todas as batalhas, na qual o Brasil apresentaria um conjunto de medidas radicais que durariam para sempre - isso não existe.
Ao mesmo tempo, o ministro reafirmou a decisão do governo de enfrentar os problemas econômicos internos que tornaram o País vulnerável à crise. Muito rapidamente, o governo anunciará seu programa fiscal trienal, informou, explicando que o presidente Fernando Henrique Cardoso exigiu que a equipe econômica estabeleça como metas superávits primários crescentes entre 1999 e 2001.
Isso, disse Malan, será o ponto central do segundo mandato do presidente. Esta é a contribuição que o Brasil tem a dar para conter o contágio da crise financeira global continue se espalhando, segundo o ministro.
Refletindo as conclusões da reunião dos ministros das finanças da América Latina, Estados Unidos e Canadá, realizada em Washington há um mês, Malan lembrou que os países industrializados e os organismos multilaterais têm sua parte a cumprir: conter a reação irracional dos mercados e levá-los a diferenciar cada um dos emergentes com base nos fundamentos de suas economias e perspectivas futuras. O nome do jogo é a retomada gradual dos fluxos internacionais de capitais, disse.
O ministro descreveu as necessidades de financiamento externo do Brasil nos próximos 15 meses, a contar de outubro, para demonstrar que, restabelecidos os fluxos de capitais, o País estará apto a honrar todas as suas obrigações. Isso pode ser feito e nós presumimos que seremos capazes de fazê-lo, afirmou.
Dois terços das necessidades financeiras externas, estimadas em US$ 65 bilhões entre 1º de outubro deste ano e 31 de dezembro de 1999, virão sob a forma de investimentos diretos e linhas de crédito comercial. A diferença, de cerca de US$ 20 bilhões representa no máximo 35% das reservas internacionais que o País tem em caixa.
Citando esses números e a expectativa de vitória de Fernando Henrique, Malan disse que não há razão para que se perca a confiança no Brasil e na América Latina, nem na nossa habilidade para formular mecanismos de prevenção contra crises.


