Os trabalhadores mais pobres, os grandes beneficiados com a estabilização da moeda, foram os que registraram a maior queda de renda este ano. No primeiro semestre, os rendimentos reais obtidos pelos 10% mais pobres da população ocupada na Região Metropolitana de São Paulo, com ganho de até R$ 151 em junho, recuaram 15,6%, segundo pesquisa de emprego e desemprego da Fundação Seade em convênio com o Dieese. Nesse período, o rendimento dos 10% mais ricos da população ocupada, com renda acima de R$ 1.999, recuou apenas 0,7%.
Segundo o coordenador ténico do Dieese, Antonio Prado, essa redução dos rendimentos reais da população ocupada mais pobre decorre de mundanças nos preços relativos da economia. Para enfrentar a guerra de preços existente hoje no setor de serviços, que normalmente emprega grande contingente dos mais pobres e desqualificados, os empregadores estariam substituindo a mão-de-obra mais cara pela mais barata. Com isso, o rendimento dos trabalhadores mais pobres estaria recuando ainda mais.
Segundo o diretor-executivo da Fundação Seade, Pedro Paulo Martoni Branco, os ganhos obtidos por essa camada da população com o Plano Real ainda não teriam sido perdidos totalmente. Mas essa retração explicaria, em parte, a redução no consumo de alimentos registrada pelos supermercados nos últimos meses.
A pesquisa mostra que a massa de rendimento real da população ocupada em junho na região metropolitana de São Paulo caiu 0,5% em relação ao mês anterior por causa da retração de 0,9% na renda média. O rendimento real médio dos ocupados continuou em queda pelo terceiro mês consecutivo, com recuo de 1,2% em junho (R$ 853) sobre o mês anterior.
Já a massa de salários voltou a crescer depois de dois meses consecutivos de queda. Em junho, a massa de salários aumentou 2,6% sobre maio por conta do crescimento de 2,3% no salário médio real e de 0,3% no emprego na comparação com maio. O rendimento real dos assalariados aumentou em junho 1,9% sobre maio, totalizando um salário de (R$ 860), quase o mesmo nível de março deste ano.
O rendimento real dos assalariados do setor privado foi maior em 4,6% para aqueles que não têm carteira assinada, ante 0,6% para os trabalhadores contratados formalmente. ‘‘Essa variação é muito expressiva tendo em vista que a moeda está estabilizada’’, observa Martoni Branco. Ele explica que o ajuste, feito especialmente pela indústria, tem ocorrido entre a mão-de-obra menos qualificada em com salários menores.
Um estudo realizado pela Fundação Seade e o Dieese para medir a mobilidade da mãos-de-obra na década de 90 confirma a tese de que os serviços são responsáveis por absorver boa parte dos trabalhadores desempregados em outros setores. Entre 1990 e 1997, das pessoas que trocaram de emprego nesse período, 8,3% dos trabalhadores que estavam alocados na indústria e 5,8% que estavam no comércio passaram para o setor de serviços.

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