O brasileiro está deixando de lado as compras supérfluas e, cada vez mais, utilizando seus recursos para quitar dívidas. É o que apontou uma pesquisa realizada no final de 2011 pela Nielsen – que fornece análises sobre o consumidor em 56 países – e comprovou que 35% dos pesquisados estão usando parte excedente do seu salário para solucionar pendências como financiamentos, crediários e cartões de crédito, entre outras contas. Um crescimento de 6% em comparação com mesmo levantamento realizado no primeiro semestre do ano passado. O número supera até as aplicações em poupança (32%), mas ainda perde para entretenimento fora de casa, no qual 39% dos consumidores brasileiros gastam ‘‘o que sobra’’ do salário.
  Os números acompanham outro dado interessante da pesquisa: de todos que responderam ao questionário (aplicado via internet), 80% definiram sua situação financeira como ‘‘excelente ou boa’’. O índice é maior do que a média da mesma pesquisa realizada na América Latina (66%) e a média mundial, na qual apenas 52% dos 28 mil consumidores consultados escolheram tal opção.
  De acordo com o economista da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Adilson Volpi, quando os brasileiros optam por quitar dívidas estão quase realizando uma poupança. ‘‘Estamos num país com as maiores taxas de juros do mundo. Tais juros acabam absorvendo boa parte da renda da população de forma injusta. Por isso, quem se endivida tem que administrar isso rapidamente, pois pode precisar do dinheiro para uma urgência e não ter como lidar com isso’’, relata ele.
  O economista explica ainda que a nova classe média brasileira ‘‘é presa fácil’’ para as instituições financeiras. ‘‘É exatamente o que os bancos precisam. São clientes que geralmente estão com a recomposição salarial acima da inflação. Por isso, as instituições criam facilidades (de crédito) para abocanhar esta parcela da população que, naturalmente, não gosta de ficar devendo’’, salienta Volpi.
  De uma forma geral, o especialista aprovou o resultado do levantamento, mas ressalta que o brasileiro ainda não sabe aplicar o seu dinheiro excedente de forma eficiente. Ele explica que a maioria das pessoas associa um investimento como um bem que possa utilizar na hora. ‘‘O consumidor quer algo instantâneo, um bem que possa utilizar imediatamente: um carro, uma televisão etc. Desta forma, vai comprometendo parte significativa da renda futura, criando dívidas desnecessárias, só pela facilidade da compra. Neste cenário, os consumidores acabam ficando sem dinheiro, mas nunca sem crédito’’, comenta ele.
  Isso acontece porque o consumidor, em sua grande maioria, tem uma formação de finanças a curto/médio prazo, e não a longo prazo. O economista da UFPR cita o investimento em educação, no qual geralmente não possui retorno imediato, mas é muito importante. ‘‘Por que ninguém oferece crédito para educação como para a compra de bens materiais? Para esta pesquisa ter ficado adequada, faltaria o brasileiro apostar sua renda neste quesito. Este é um bem que fica com o consumidor para sempre, e que pode auxiliar num incremento da renda futuramente’’, completa.

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