A expansão das fronteiras agropecuárias brasileiras foi um dos assuntos abordados ontem no 28º Congresso Brasileiro de Ciência do Solo, que termina hoje no complexo do Colégio Marista, em Londrina. Responsável por constantes discussões no meio científico, o assunto foi tratado sob uma ótica comum: a preocupação com uma ocupação responsável e sustentada, que provoque o mínimo possível de impacto sobre o meio ambiente.
Entre as regiões que mais causam preocupação hoje está a Amazônia, um verdadeiro tesouro brasileiro, que ao mesmo tempo em que é devastado por muitos, é cobiçado por outros tantos que enxergam ali as inúmeras possibilidades de aproveitamento de matéria-prima. Segundo Luiz Antonio de Oliveira, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), cerca de 12% da floresta já foi desmatada, o que corresponde a 54 milhões de hectares (ha).
Oliveira informa ainda que 95% deste desmatamento está relacionado à agropecuária. ‘‘Esta área corresponde a toda a área cultivada no restante do País.’’ O mais grave, porém, é que a maioria dos investimentos com agropecuária feitos até hoje na Amazônia fracassaram ao longo dos anos. As principais causas foram a falta de conhecimento científico; o uso de espécies forrageiras que não se adaptaram à região; a ocorrência de pragas e doenças e a perda rápida da fertilidade do solo nos locais desmatados.
O INPA defende que é preciso mudar urgentemente o modelo de desenvolvimento da Amazônia. ‘‘Mais nada deve ser desmatado, pois a área disponível atualmente para plantio já é suficiente. Porém ela deve ser melhor aproveitada’’, diz Oliveira. Os pesquisadores sugerem, por exemplo, o plantio de espécies lenhosas com aptidão comercial que já estão em processo de extinção, como o mogno e o pau-rosa, muito utilizado pela indústria de cosméticos e perfumes.
‘‘A biodiversidade da floresta amazônica possui um valor estimado de US$ 3 trilhões. Se for conservada e bem aproveitada, pode ser a salvação do País’’, diz o pesquisador. Para isso, porém, ele alerta para a necessidade de o produto final ser gerado aqui dentro, antes que os estrangeiros o façam. ‘‘A globalização hoje estimula o patenteamento de produtos, que pode se tornar uma grande fonte de renda para o País.’’
Mas ao contrário das nações desenvolvidas, que investem pesado em ciência e tecnologia, no Brasil o setor está sucateado. De acordo com Oliveira, existem hoje no País 65 mil profissionais trabalhando na área, quando o necessário seria 10 vezes mais. ‘‘Estamos entregando de mão beijada nossas riquezas naturais para os países desenvolvidos. Esta é a política do FMI’’, critica o pesquisador, lembrando que há formas sutis de se dominar um país, como por exemplo através do poder aconômico.
No caso da Amazônia, Luiz Antonio de Oliveira afirma que os maiores responsáveis pela degradação são os pequenos produtores imigrantes, que por não respeitarem a vocação natural da região, não se adaptaram à realidade local. Assim, cometem erros grosseiros e acabam por destruir a sustentabilidade, sendo obrigados a desmatar áreas cada vez maiores para sobreviver.

mockup