Luxo movimenta US$ 2 bilhões no Brasil
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sábado, 19 de junho de 2004
Vera Dantas<br>Agência Estado 
São Paulo- Entre as vitrines de lojas de alto luxo, onde reluzem grifes consideradas verdadeiros símbolos de riqueza e status, se movimenta discretamente um outro mercado. Ele é formado por poucas marcas e produtos destinados a um público ultra-seleto, que deseja sofisticação, mas também exclusividade. É um nicho muito pequeno, destinado a consumidores com altíssimas contas bancárias, e que movimenta cifras milionárias.
Mais do que oferecer objetos requintados e de qualidade inquestionável, estas marcas se destacam pela tradição e por colocar no mercado peças exclusivas ou em quantidades mínimas. ''A estratégia das grandes marcas de luxo é utilizar como ferramenta de venda a tradição do inatingível, do objeto para meia dúzia de pessoas'', diz Carlos Ferreirinha, diretor da consultoria MCF e especialista no mercado de luxo. ''Produtos exclusivíssimos alcançam valores que ultrapassam em muito todos os atributos que ele possa ter em qualidade e sofisticação. Eles transmitem o sonho do inacessível.''
Para a consultora de moda Elena Montanarini, o que se tem hoje é um grande crescimento do número de lojas de marca. E em alguns casos, o desejo de ter objetos destas marcas, por causa do status, é tão grande que elas acabam sendo pirateadas e ''popularizadas.'' Em contrapartida, observa, há um outro público que se enquadra no fenômeno do luxo exclusivo.
''Além das logomarcas, o que se procura neste caso é a altíssima qualidade, a personalização, o bom gosto.'' Pode ser o consumidor, exemplifica, de uma cadeira dos anos 30 ou de objetos de artesanato dos irmãos Fernando e Humberto Campana. Eles revolucionaram o design brasileiro com obras arrojadas e peças que hoje estão expostas no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMa).
O luxo movimenta no Brasil entre US$ 1,5 bilhão e US$ 2 bilhões ao ano, segundo estimativa da consultoria MCF, envolvendo o mercado de moda, acessórios, perfumes, cosméticos e carros. ''O mercado nacional ainda é embrionário se comparado ao mercado mundial,'' diz Ferreirinha. A Tiffany, por exemplo, a mais famosa joalheira do mundo, pelo brilho de seus diamantes e pelo glamour que a atriz Audrey Hepburn conferiu à casa em Nova York, no filme ''Bonequinha de Luxo'', faturou no ano passado US$ 2 bilhões em suas 149 lojas espalhadas por 16 países.
Uma das estratégias de venda da joalheria é passar a impressão de que grande parte das pessoas pode ganhar um dia uma ''blue box'', a caixinha azul, símbolo da marca em todo mundo. Na Tiffany do Shopping Iguatemi (SP), réplica da matriz de Nova York, a jóia mais barata, uma corrente de prata de lei, custa R$ 293 e certamente é acessível a muitos bolsos. Mas são os objetos exclusivos que reforçam a aura de sofisticação da marca, como um anel de diamantes de 6,77 quilates, exposto na loja durante um mês e que custava nada menos que R$ 1,1 milhão.
A jóia foi criada para a coleção Tiffany's Jazz, com 30 peças únicas para correrem o mundo. O anel, assim como outras jóias da coleção, trazem a assinatura da lapidação Lucida, patenteada pela casa. ''Só cinco lapidários no mundo trabalham a Lucida, porque o corte é extremamente elaborado, com o sacrifício de 60% da pedra bruta para se atingir um brilho inigualável'', diz a gerente geral da marca no Brasil, Laura Pedroso. Das peças da coleção, 5 foram vendidas aqui, 2 delas na faixa dos R$ 600 mil.
''As marcas são obrigadas a investir no inacessível justamente para se manterem como exclusivas, com coleções muito enxutas'', diz Ferreirinha. Ele destaca também o peso da tradição e o artesanato como outros atrativos no mercado do luxo para poucos. A suíça Patek Philippe, por exemplo, reconhecida pela precisão e classe de seus relógios, em 158 anos de existência produziu pouco mais de 600 mil peças, um volume alcançado facilmente por vários fabricantes em apenas um ano de produção.
O gerente de produtos Sebastien Liron, da H.Stern, única representante da Patek Philippe no Brasil, dá a medida do valor da marca. ''De 100 relógios vendidos em leilões, os maiores valores são alcançados pelo Patek'', diz. O recorde foi em 1999, com um relógio de bolso produzido em 1930, com 24 funções, que foi arrematado por US$ 11 milhões. Foi uma peça única, vendida a um industrial, e que hoje está exposta no museu da marca em Genebra.
No Brasil, das oito coleções Patek colocadas à venda, a maioria é procurada por colecionadores da marca. Os preços vão de R$ 20 mil a R$ 180 mil. O relógio mais caro é tão exclusivo que são vendidas menos de dez peças por ano. É um objeto de ouro, com calendário perpétuo, programado para se acertar sozinho no fim do mês. É mecânico, feito à mão, e o seu maior valor está na máquina.
No templo de luxo Daslu, as marcas Chanel e Valentino de alta-costura se sobressaem na restrita lista dos exclusivos. Para se ter uma bolsa Cambon da Chanel, por exemplo, é preciso entrar numa fila de espera em todo o mundo. Só na Daslu, 200 clientes aguardaram para comprar modelos entre R$ 3 mil e R$ 9 mil. A Cambon é um lançamento recente, mas o modelo clássico de corrente não sai por menos de R$ 4,8 mil.
Na Daslu não se revelam números, mas a assessoria da loja informa que é uma das que mais vendem Chanel no mundo. No caso, se for considerada a venda por metro quadrado. Na alta-costura a Daslu importa vestidos de noite da Valentino de até R$ 25 mil. E quando se fala de altíssima costura, dizem que a grife Valentino é tão especial que não teria mais do que 300 consumidoras no mundo.


