Roma - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem que os países precisam construir um sistema financeiro mais transparente e imune ao capital especulativo. Em discurso no Palácio Quirinale, em Roma, onde foi recebido pelo presidente italiano Giorgio Napolitano, ele afirmou que só com vontade política é possível acabar com a crise financeira mundial. ''Os governantes precisam entender que precisamos ouvir menos analistas de mercado e mais analistas de problemas sociais, de desenvolvimento e que conhecem as pessoas'', disse.
Sob o olhar de Napolitano, um ex-comunista, que demonstrou surpresa e satisfação com a parte de improviso do discurso, Lula disse que os países em desenvolvimento precisam ser mais ouvidos nos fóruns internacionais e defendeu a criação de uma ''nova ordem'' econômica mundial que dê prioridade ao ser humano e não à especulação financeira. ''Penso que essa crise é uma oportunidade extraordinária para fazermos uma reflexão de tudo que fizemos de errado a partir do Consenso de Washington e criarmos outro consenso em que o ser humano, o trabalhador, a produção industrial e a produção científica e tecnológica sejam a razão de ser da economia e não a especulação financeira'', disse.
Em seu discurso, o presidente brasileiro disse que Brasil e Itália têm histórias e culturas que se entrelaçam. ''Nossos povos se admiram'', afirmou. ''Nos reconhecemos uns nos outros e não poderia ser diferente, pois temos hoje no Brasil mais de 30 milhões de descendentes de italianos'', completou. Lula ressaltou ainda que o intercâmbio comercial entre os dois países chega a US$ 8 bilhões anualmente.
Giorgio Napolitano, em discurso feito anteriormente, também lembrou da importância dos italianos na formação e desenvolvimento do Brasil e destacou a importância do País no atual contexto. ''O Brasil é um protagonista influente nas relações internacionais'', afirmou. ''Neste momento de crise, o Brasil é um dos principais países emergentes, um baricentro das decisões'', afirmou.
O presidente italiano disse que, no encontro de governantes em Washington, marcado para o próximo final de semana, para discutir a crise financeira, o Brasil poderá dar uma grande contribuição para encontrar novas regras. ''Concordo com o presidente Lula de que é preciso encontrar uma estabilidade no mercado e resolver os problemas'', disse. Ele ainda ressaltou que o Brasil, por ter um importante papel na estabilidade econômica e política na América Latina, pode ajudar a intensificar as relações entre a União Européia e a região.
A visita oficial de Lula à Itália se encerra amanhã. A crise econômica mundial e a necessidade de atuar de modo coordenado ante a tempestade financeira global serão os temas chaves da agenda de Lula na Itália.
A economia será abordada sobretudo no encontro de hoje com o chefe de governo Silvio Berlusconi, que apóia a ampliação do G8 (o grupo de sete países mais ricos do planeta, além da Rússia) a partir de janeiro de 2009, para que grandes países com economias emergentes, como Brasil, Índia, China e México, sejam incluídos.
Lula será recebido amanhã no Vaticano em uma audiência privada com o Papa Bento XVI. Uma delegação de ministros brasileiros se reunirá paralelamente com o número dois do Vaticano, o cardeal Tarcisio Bertone.
Durante sua visita, Lula deve se reunir também com representantes dos sindicatos e a patronal italianos.

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