Brasília - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva inventou uma nova tática de negociação internacional: a diplomacia pelo estômago. No próximo sábado, a delegação do presidente da China, Hu Jintao, deverá deleitar-se com um churrasco na Granja do Torto. A China não importa carne fresca do Brasil. No entanto, há boas chances de essa barreira ser removida esta semana.
A boa culinária já deu resultados recentemente, segundo lembrou ontem o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan, durante o I Seminário de Coordenação Federativa para Promoção das Exportações. ''O presidente Lula encasquetou que ia remover as barreiras japonesas à manga'', contou. Quando o primeiro-ministro japonês, Junichiro Koizumi, esteve no Brasil, foi-lhe oferecido um almoço no Palácio do Itamaraty que teve de sobremesa gratin de manga e manga em pedaços. O Japão abriu seu mercado para a fruta brasileira, pondo fim a quase 30 anos de negociações.
No caso dos chineses, o foco será a carne. ''Esperem e verão a estratégia do presidente'', comentou Furlan. Ele informou que a China já tem um acordo sanitário assinado com o Brasil há dois anos, mas ainda não abriu seu mercado. A surpresa que está sendo preparada por Lula seria uma ''prova dos nove'', ou seja, uma forma de argumentar indo direto ao ponto: o paladar.
As barreiras sanitárias à carne brasileira serão um dos principais itens da agenda do encontro de Lula com o presidente chinês, que chega ao País nesta quinta-feira. Técnicos chineses estiveram no País nos últimos dias para tratar do assunto.
Estarão sobre a mesa os projetos para a instalação de um pólo siderúrgico no Pará e projetos de financiamento em infra-estrutura. Os chineses estão interessados em participar do programa brasileiro de recuperação e ampliação da malha ferroviária. Também pretendem participar da construção de um gasoduto no Nordeste, a Gasene. O problema, nesse caso, é que os japoneses também estão interessados. O coordenador da Sala de Investimentos do Palácio do Planalto, Walter Cover, disse que passará a quinta e a sexta-feira reunido com integrantes da delegação chinesa para tratar desses temas. ''Será uma visita bastante produtiva'', afirmou.
Da parte dos chineses, o principal pedido será o reconhecimento, pelo Brasil, que a China é uma economia de mercado. O dividendo político desse reconhecimento é, para eles, mais importante do que os entendimentos na área comercial. Por isso, esse é um ponto que o governo brasileiro quer negociar muito bem. A contrapartida para um eventual reconhecimento seria mais investimentos no País.
Ao envolver-se pessoalmente nas negociações comerciais, como fará com os chineses, o presidente Lula age como ''o verdadeiro mascate'' dos produtos brasileiros, avaliou o ministro Furlan. Diferente dos outros presidentes, Lula costuma cobrar resultados de suas iniciativas na área comercial. Furlan contou que, recentemente, relatou a Lula os resultados da Semana do Brasil na Arábia, realizada em dezembro do ano passado. ''Dos 80 empresários que foram, todos fecharam negócios que vão da venda da castanha de caju a software de gestão hospitalar'', disse.
Na avaliação do ministro, os sinais de diversificação da pauta exportadora brasileira estão por toda parte. ''Vocês acreditam que estão falsificando sandálias Havaianas com a bandeira do Brasil?'', perguntou. ''Por um lado é ruim, por outro é o reconhecimento da qualidade do produto, porque ninguém falsifica o que é ruim.''

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