Rio de Janeiro - Em vez de desonerar a atividade produtiva - caso das isenções do Impostos sobre Produtos Industrializados (IPI) sobre automóveis e eletrodomésticos - o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem que prefere distribuir dinheiro diretamente aos pobres para aquecer a economia. Insatisfeito com o reflexo das isenções fiscais no preço final dos produtos, Lula defendeu as políticas de transferência de renda e afirmou que é preciso rever o discurso de redução de carga tributária, que costuma ouvir dos empresários.
No lançamento das obras de revitalização do Porto do Rio, o presidente disse ter dado o recado numa reunião recente com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e um grupo de empresários. ''Eu falei para eles: em vez de a gente ficar desonerando o tanto que está desonerando, é melhor pegar esse dinheiro e dar para os pobres. Se os pobres tiverem dinheiro e forem comprar, vocês têm que produzir. Agora, a gente desonera e vocês não repassam para o custo do produto. Nós já desoneramos nesse meu mandato R$ 100 bilhões. Imagina R$ 100 bilhões na mão do povo brasileiro!''
As declarações de Lula arrancaram aplausos dos trabalhadores das obras do Porto que assistiam à cerimônia. O discurso do presidente foi todo centrado neste princípio e na defesa da manutenção do Estado forte e com capacidade financeira para influenciar a economia. ''Cada real que você dá na mão de uma pessoa pobre volta automaticamente para o comércio, para o consumo. Ele não vai para derivativos. Vai para o comércio, que é isso que nós precisamos para fazer a economia desse País crescer'', afirmou.
Lula indicou que não está mais disposto a ceder aos apelos de empresários por novas desonerações tributárias. E voltou a se queixar da derrubada da CPMF no Congresso, em 2007, que contou com o apoio de entidades empresariais, como a Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp).
Para minimizar os efeitos da crise econômica, o governo vem recorrendo a medidas agressivas de incentivo ao crédito e à redução de alíquotas de tributos para estimular setores como o automotivo, de eletrodomésticos e de construção civil. O presidente admitiu o efeito das medidas na recuperação da indústria, mas renovou sua tese. ''Acho que essas coisas acontecem de forma positiva quando se tem uma crise como essa e se reduz impostos. Mas, o que vai fazer efetivamente a economia do mundo se recuperar é as pessoas terem dinheiro para comprar, sobretudo as mais pobres e marginalizadas.''
Ele argumentou não ver a alta carga tributária do Brasil, estimada em 38%, como um problema. Ao contrário, defendeu um Estado fortalecido pela arrecadação para realizar políticas públicas. Lembrando sua recente viagem à América Central, descreveu países enfraquecidos que têm cargas tributárias entre 9% e 10%. ''Um País que tem uma carga tributária de 10% não tem Estado. O Estado não existe, não pode nada'', criticou.

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