A ‘‘grande madrugada’’ fria


Na segunda-feira, no Congresso da Soja, em Foz do Iguaçu, o representante das indústrias (o presidente da Abiove, Carlos Locatelli), critica a Farm Bill, a nova lei agrícola norte-americana, que detona países concorrentes como o Brasil. Critica também a Declaração de Doha, que ‘‘foi muito tímida para o agronegócio soja’’.
Na terça-feira, ontem, no mesmo evento, o presidente da Abag, Roberto Rodrigues, avisa, enfático, como se comemorando antecipadamente: no ano 2005, quando se encerram as rodadas de negociações da OMC, virá também o ‘‘amanhecer’’ da abertura do mercado (ver reportagem nesta página).
Preparando-se para a ‘‘grande madrugada’’, Rodrigues conclamou o governo e os participantes do congresso a ‘‘fazer a lição de casa’’.
Euforia à parte, Rodrigues sugeriu, de novo, o esforço para agregação de valores, etc, etc. Ao governo, as questões macro, como reforma tributária, política de juros e renda. Exatamente o que este governo inócuo não fez.
Não fez porque não quis. Ou e porque não foi suficientemente cobrado por representantes do setor produtivo, entre eles talvez o próprio Rodrigues.
Aliás, não se sabe o que é pior: se a postura meramente contemplativa - das nossas lideranças -, ou a cobrança estéril, aquela que o governo ouve mas não se toca, mantém a indiferença, deixando entrever o desprestígio dos signatários.
Com relação ao prognóstico para 2005 (ainda em pleno reinado da Farm Bill), ele deve ser bem recebido.
Nada melhor que uma forte dose de otimismo nessas madrugadas frias em que o agricultor se preocupa com os prenúncios de geadas. E com o clima no Meio Oeste dos EUA. Questões mais urgentes.
Auditório cheio e holofotes empolgam mesmo.
Detalhe importante: o principal negociador americano na Organização Mundial de Comércio (OMC), Allen Johnson, disse ontem, em Genebra, que os EUA pretendem eliminar todos os subsídios agrícolas para a exportação em um prazo de cinco anos. E que seu país está disposto a fechar um compromisso sobre essas subvenções que distorcem o comércio internacional.
Talvez tivesse comunicado antes a Roberto Rodrigues.
Ironia à parte, é bom ter os pés no chão. Ainda ontem, a Secretaria de Comércio Exterior apresentou um relatório - referente a maio - sobre os efeitos das medidas protecionistas adotadas pelos EUA e UE. Além das vendas em volume menor, ocorreu uma queda de preços de 10% dos semimanufaturados de ferro e aço e de 15% dos laminados planos.

mockup