Para evitar o desemprego no setor automotivo, a única saída é envolver trabalhadores, empresas e governo em um projeto para reativar a economia. Foi a partir dessa avaliação que o sindicalista Luiz Marinho, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC (filiado à CUT), apresentou no último dia 13 uma proposta para um programa de renovação da frota de veículos.
A idéia é estimular o proprietário do carro com mais de 15 anos de idade a trocar o veículo usado por um novo, que teria preço até 30% menor do que o de tabela. O incentivo do preço viria da redução dos impostos e da margem de lucro das montadoras e das concessionárias. A proposta prevê ainda que os carros usados seriam destinados a centros de reciclagem - há partes que podem ser reaproveitadas.
O governador de São Paulo, Mário Covas (PSDB), já convocou quatro reuniões entre trabalhadores, empresários e técnicos do governo para tentar chegar a um acordo. A última, na sexta-feira passada, terminou sem conclusão. Decidir o quanto cada segmento contribuirá para reduzir o preço dos carros é o maior obstáculo ao acordo. A seguir, trechos da entrevista:
- O Sindicato dos Metalúrgicos do ABC apresentou uma proposta para um programa nacional de renovação da frota de veículos. Como surgiu a idéia?
Luis Marinho - Nós estamos discutindo essa questão há um bom tempo. Apareceu pela primeira vez em 92, quando do acordo da câmara setorial do setor automotivo, mas de um ano para cá a gente vem trabalhando de forma mais intensa. A frota é composta de 18 milhões de veículos. Desses, 5,5 milhões têm acima de 15 anos de idade. Ao elaborar a proposta, nós desenvolvemos a idéia de reduzir o preço do carro para que as pessoas fiquem estimuladas a trocar seu carro velho. Nós estamos propondo que esse estímulo venha da redução do IPI, do ICMS e da margem de lucro, em especial das montadoras, chegando a uma redução de preço em torno de 30% para o carro popular.
- Como os metalúrgicos contribuiriam para reduzir o custo dos carros?
L.M. - Está nas estatísticas dos últimos dez anos que a produtividade aumenta a cada ano que passa. Os trabalhadores contribuem com o aumento da sua produtividade e da qualidade. Essa é a contribuição.
- O governo se mostrou favorável a reduzir o ICMS?
L.M. - Tem uma frase do governador Mário Covas que é a seguinte: ‘‘é preferível receber 50% do que não receber nada, como está acontecendo’’. Porque o mercado está parado. O programa da Itália de renovação da frota foi baseado fortemente na redução de impostos e da margem de lucro. Mesmo com a redução da carga tributária, o governo italiano registrou aumento da arrecadação da ordem de US$ 800 milhões, por conta do aumento das vendas.
- As montadoras fizeram algum tipo de restrição à proposta?
L.M. - Até agora elas não colocaram nenhuma restrição. A única dificuldade é que elas não querem reduzir as margens. Em todos os países que adotaram esses programas as montadoras contribuíram. O que elas estão propondo é ficar responsável pela reciclagem. A reciclagem gera despesa no início, mas o processo se torna lucrativo.
- A proposta do sindicato recebeu críticas da Força Sindical. Como você avalia essas críticas?
L.M. - Eu estranhei muito as críticas da Força porque não têm consistência. As pessoas não serão obrigadas a trocar os carros, mas se o veículo está poluindo mais, gerando problemas para a sociedade, não justifica que um carro de 20 anos de uso seja isento de IPVA. Por que um carro de 17 anos paga um IPVA insignificante? Outra crítica da Força é em relação às oficinas, que perderiam trabalho. Isso aconteceria se os 5,5 milhões de carros com mais de 15 anos fossem trocados de uma vez. Isso não acontece; a nossa projeção é que será de 400 mil por ano. O que vai tirar de fato os carros da rua será a inspeção determinada pelo novo código de trânsito.
- O pano de fundo dessa proposta é o desemprego. Qual a situação nas indústrias do ABC?
L.M. - Se não revertemos a tendência atual, certamente teremos em 99 um ano mais duro do que foi 98. Todos os dados econômicos apontam para isso. Haverá recessão, a produção do setor automotivo será menor do que 98 e teremos novas plantas industriais em operação. Ou nós revertemos tendência e criamos condições para que o mercado retome ou então nós vamos assistir muitas demissões. Várias empresas já demitiram. Precisamos de mecanismos de retomada da produção.
- Quantas demissões no setor já ocorreram em 98?
L.M - Eu acho que, na nossa base, estávamos com 115 mil trabalhadores no começo do ano e estamos hoje abaixo de 110 mil. Para 99, se não reverter, o setor de autopeças fala em demitir 24 mil em 99 no Brasil. As montadoras farão uma redução de 25%. Elas empregam hoje 101 mil trabalhadores. A Volkswagen fala de 6 mil a 7 mil demissões se não houver redução de custos. A lógica de preservar postos de trabalho é ter demanda pela produção. É exatamente o que estamos fazendo com a proposta de renovação da frota.
- A prioridade hoje é manter emprego?
L.M. - Sem dúvida. Prioridade número um é manter o emprego, junto com a preservação do poder aquisitivo. Nós precisamos construir um movimento em defesa do emprego.
- A sua postura tem gerado críticas dentro da própria CUT. O que você acha disso?
L.M. - Nós temos visões ideológicas na CUT. Alguns companheiros mais representam uma visão ideológica do que uma visão sindical. Os sindicatos, na sua essência, precisam estar em sintonia com a categoria.Arquivo FolhaQuestão de lógicaO sindicalista Luis Marinho: ‘‘Para preservar empregos é preciso ter demanda pela produção’’Agência Folha

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