Lucro derramado
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segunda-feira, 02 de outubro de 2017
Fábio Galiotto<br>Reportagem Local 

O desaquecimento da demanda pelo consumidor final causado pela crise econômica e o aumento da captação de leite fizeram com que o preço do leite ao produtor caísse 6,6% em setembro na comparação com agosto, com valor líquido de R$ 1,10 por litro, segundo levantamento do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz). O recuo representa R$ 0,07 por litro, na quarta variação negativa consecutiva, o que confirma a tendência de redução da margem de lucro para os próximos meses.
Com o fim do inverno e da entressafra, há elevação da produção leiteira. No entanto, produtos lácteos ou de maior valor agregado, como o leite UHT, somente entram na cesta do consumidor por meio de promoções. E, mesmo com queda real de 7,8% em um mês no valor do UHT no mercado atacadista paulista, as vendas seguem em baixa.
O problema é que, de acordo com o ICAP-L (Índice de Captação de Leite), a indústria recebeu 4,9% mais leite de julho para agosto, com destaque para os estados do Sul. Em Santa Catarina, o aumento foi de 11,7%, no Rio Grande do Sul, de 6,8%, e no Paraná, de 4,7%, informa o Cepea.
Pesquisadora do Cepea, Natália Grigol afirma que parte do problema é a sazonalidade. "Quando volta a chover no Sudeste e no Sul é normal que a produção aumente e o preço caia, mas neste ano o preço começou a recuar em junho", diz.
É o menor consumo de lácteos e de produtos não considerados como essenciais à cesta básica do brasileiro que tem, mesmo, feito a diferença. "Isso é um problema, porque como a crise tem persistido, o consumidor se acostuma a passar sem esse produto e demora muito para voltar a comprá-lo", explica Grigol.
O técnico da pecuária leiteira do Deral (Departamento de Economia Rural) da Seab (Secretaria de Estado de Agricultura e Abastecimento), Fábio Mezzadri, confirma que a queda maior no valor se deu pela oferta. "No inverno há entressafra e era para o preço ter aumentado", diz. Nas contas do Deral, o preço bruto caiu 7,8% no Paraná, de R$ 1,28 em agosto para R$ 1,18 em setembro.
MARGEM APERTADA
A tendência é que o preço pago se aproxime mais do valor de produção, o que espreme as margens de lucro dos produtores. Mezzadri considera que o preço do milho mais baixo neste ano em relação a 2016 é um alento, o que reduz o valor da ração concentrada. Contudo, Grigol diz que o criador vem de um ano de rombos no orçamento com o alto valor cobrado pelo grão e estava usando o lucro para tapar esses buracos. "A produção de leite é bastante sensível à redução da renda pela dificuldade de planejamento em longo prazo", conta a pesquisadora.
Para ela, o momento de aperto é o pior possível por ser justamente nos meses que o produtor define investimentos para o próximo ciclo. Caso decida por não reformar a pastagem para economizar, por exemplo, sofrerá os efeitos no bolso no próximo ano. "A redução de investimentos pode ser um tiro no pé em longo prazo", sugere Grigol.

Prazo de pagamento começa a ser estendido
Atacadistas e varejistas têm pressionado a indústria de leite para que faça promoções e fortaleça o consumo nas gôndolas. Sem muita margem de manobra, uma das formas de reduzir o custo é a extensão do prazo de pagamento, que sempre foi de 30 para 40 dias, diz a pesquisadora Natália Grigol, do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz). "A indústria fica com um difícil equilíbrio entre receber dos clientes, manejar estoques, definir estratégias de processamento, pagar o produto que capta e garantir vendas", diz.
A tendência é que a demora para quitar os pagamentos também chegue à relação entre produtor e empresas de laticínios. Porém, a pesquisadora diz que a relação entre os dois elos azeda e a indústria se arrisca a perder produtores no médio prazo. "Algumas empresas já anunciaram que vão estender os prazos de pagamento também e a rentabilidade do produtor diminui, porque fica sem capital na mão", completa Grigol.


