O fator Marina Silva

Em política, dizia o dr. Ulysses Guimarães, só existem dois fatos importantes: o fato novo e o fato consumado. O fato consumado era a inevitabilidade de uma disputa plebiscitária entre governo e oposição nas eleições de 2010.

Essa era a principal estratégia de Lula para eleger Dilma Rousseff: transformar as eleições presidenciais em plebiscito sobre o seu governo. Tamanha é a confiança de Lula no próprio taco, que abraçou o projeto: gostou do meu governo? Eleja Dilma. Não gostou? Eleja Serra (ou Aécio).

E o presidente não tinha a menor dúvida do resultado. A tal ponto que declarou que seu desejo é liquidar a fatura no primeiro turno. Pois Lula vai precisar rever seus planos. O fato novo apareceu. E atende pelo nome de Marina Silva.

Convidada a se transferir para o PV e se candidatar à Presidência, a doce senadora pelo Acre balançou. Ainda não se decidiu, mas a notícia foi suficiente para embaralhar inteiramente o jogo para 2010.

Começa que Marina não é a típica oposição a Lula. Bem ao contrário, é sua companheira de militância no PT há muito mais tempo que Dilma Rousseff. Ministra de Lula durante o primeiro mandato, símbolo mundial da luta em defesa da Amazônia, perdeu a parada para Dilma Rousseff, mas não se tornou uma dissidente raivosa como Heloísa Helena.

Tem mantido posições firmes no Senado, opõe-se à aliança espúria com o pior do PMDB, assinou a carta pelo afastamento de José Sarney. Está fazendo tudo certo. Em segundo lugar, Marina tira de Dilma a ''candidatura de gênero''. Os marqueteiros terão que mudar a tese de que ''o Brasil está maduro para ter uma mulher na presidência''.

Terceiro, uma candidatura Marina Silva traz oxigênio a uma campanha que já estava marcada pela mesmice. Agrega qualidade ao debate. Espanta teias de aranha. Serra e Dilma não têm muitas diferenças. Autoritários, carentes de carisma, sabichões, ambos são partidários de uma forte presença do Estado, ambos são críticos da política monetária praticada pelo Banco Central.

O que pensam sobre energias alternativas, desenvolvimento sustentável, aquecimento global, economia verde? Ninguém sabe. A simples possibilidade de ter Marina Silva na disputa já perturbou articulações para a montagem de palanques estaduais, tornou obsoletas as estratégias urdidas tanto no Planalto quanto nas oposições.

Ciro Gomes já não quer mais concorrer em São Paulo para garantir o caráter plebiscitário da eleição presidencial. Já pensa em concorrer à presidência. Dilma Rousseff faz declarações públicas de apreço a Marina Silva - apreço, diga-se de passagem, que desprezou quando derrotava seguidas vezes Marina Silva no governo.

Em suma, o Planalto acusou o golpe. Uma coisa é certa. O fator Marina Silva injetou oxigênio numa campanha que se anunciava chatíssima e está trazendo de volta o entusiasmo dos jovens pela política.

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