As bolsas de valores foram atingidas em cheio pela reviravolta dos rumos da CPI dos bancos. Orientado por seus advogados, o ex-presidente do Banco Central Francisco Lopes se recusou a assinar o termo de compromisso. Na prática, deixou claro que não iria depor. A atitude de Lopes surpreendeu a todos - de senadores a operadores de mercado -, resultando na sua prisão.
A Bovespa, que chegou à valorização máxima de 1,19% pela manhã e vinha operando em ligeira alta no final da tarde, engrenou um forte ritmo de queda, fechando na pontuação mínima do dia, em baixa de 2,12% (10.797 pontos). Foi rompido o piso dos 11 mil pontos, patamar superado desde o dia 5 de abril. Das 57 ações que compõem o índice da carteira teórica paulista, apenas sete fecharam em alta. Os negócios na Bovespa somaram meros R$ 474 milhões, indicando claramente a postura de cautela dos investidores antes mesmo de haver o inesperado desfecho.
Importa agora aos operadores as repercussões que o fato terá sobretudo junto aos investidores estrangeiros. Não houve tempo ontem para os bradies serem afetados, em função do tardio horário da prisão de Lopes. Incomoda o fato de que, diante da recusa do ex-presidente do BC, será praticamente impossível evitar que os ministros Pedro Malan e Pedro Parente deponham. Também aguarda-se com ansiedade a entrevista no Roda Viva, na TV Cultura, que o presidente Fernando Henrique Cardoso concederá ao vivo nesta noite.
No início da noite, os operadores estavam divididos em duas vertentes. Para uma ala, a CPI dos bancos pode estar agora condenada à morte - o que agrada ao mercado. Para outros, contudo, a comissão poderá ter sua força redobrada, sobretudo com o discurso enérgico de Antônio Carlos Magalhães em defesa do Senado.
O mercado de juros operou todo o dia de lado, apreensivo com o depoimento do ex-presidente do BC Chico Lopes à CPI dos Bancos. Ao longo do dia, porém, o mercado foi se recuperando e acabou fechando com recuo das taxas. O desfecho inesperado na CPI dos Bancos, que culminou com a prisão de Chico Lopes, não pegou o mercado aberto.
Para hoje, espera-se que os negócios abram pressionados por causa das notícias de véspera da CPI, mas deve se estabilizar ao longo do dia. Para muitos analistas, a estratégia dos advogados de Lopes foi brilhante. ‘‘Ele deu um baile na CPI’’, avaliou um operador.
Mas talvez seja muito cedo ainda para avaliar o desempenho dos senadores da CPI. Restam muitos depoimentos, entre convocados e convocáveis. O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) declarou após o encerramento da sessão de ontem da CPI dos bancos que o ministro da Fazenda, Pedro Malan, deve ser convocado a depor.
A tranquilidade do mercado ontem vem de notícias positivas sobre inflação, controlada, boa aceitação da iniciativa do governo federal e do BNDES de captarem no mercado externo. Isso tudo leva o mercado a manter a expectativa de queda dos juros. Os mais otimistas acreditam que nas próximas horas o BC deve anunciar a redução da taxa Selic de 34% para 32%.
A principal pergunta que se fazia no final da tarde de ontem nas mesas de operações do mercado de câmbio era: qual será o comportamento do Banco Central na abertura dos negócios na manhã desta terça-feira? É consenso entre os operadores que o mercado vai amanhecer nervoso, refletindo o pedido de prisão de Chico Lopes pela CPI do Sistema Financeiro. E que a tendência do dólar será de alta logo cedo. A dúvida é saber como o BC vai administrar a situação.
A prisão de Lopes aconteceu num momento em que a liquidez do mercado de câmbio estava baixa. Por isso, a notícia não provocou reação imediata nos preços da moeda norte-americana. ‘‘A reação deverá acontecer na terça’’, afirmou um operador.
Por conta disso, o dólar passou o dia em alta, oscilando entre a mínima de R$ 1,6950 e a máxima de R$ 1,7050. Pouco antes da prisão de Lopes, o dólar estava cotado a R$ 1,70, em alta de 0,59% em relação ao fechamento de sexta-feira passada. Esta também acabou sendo a cotação de encerramento dos negócios.

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