A falta de ação do Banco Central na última sexta-feira, permitindo uma especulação desenfreada e uma desvalorização recorde do real, irritou profundamente o presidente Fernando Henrique Cardoso e foi a gota d’água para a decisão de demitir ontem o presidente do Banco Central, Francisco Lopes. O indicado para substitui-lo é o economista Armínio Fraga que até ontem trabalhava para o megainvestidor George Soros.
Enquanto o nome de Fraga não é aprovado pelo Senado Federal, a presidência da instituição será exercida interinamente pelo diretor de assuntos internacionais do Banco Central, Demósthenes Madureira de Pinho Neto. O ministro da Fazenda, Pedro Malan, revelou ontem que outras mudanças na diretoria da instituição serão anunciadas.
Segundo interlocutores próximos ao presidente Fernando Henrique Cardoso, o nome de Armínio Fraga Neto foi fechado no último sábado. Enquanto aguarda o prazo no Congresso para a aprovação de sua indicação, ficará como assessor especial do ministro da Fazenda, Pedro Malan. A indicação como assessor especial já foi publicada no Diário Oficial de ontem.
Fraga esteve no Palácio da Alvorada na última quarta-feira, acompanhado do ministro Malan, para conversar com Fernando Henrique. O primeiro boato foi que seria indicado pelo presidente para substituir Malan. Os assessores de Fernando Henrique negavam a substituição do ministro da Fazenda, reconhecendo que Fraga, se viesse para o governo, viria ‘‘para somar’’. No sábado e no domingo, Fernando Henrique manteve reuniões com integrantes da equipe econômica para traçar a mudança no BC.
Fernando Henrique, garantiu ontem a um importante interlocutor, que ‘‘está confiante’’ de que Fraga Neto tem todas as credenciais para exercer bem o papel de presidente do Banco Central dentro da nova política cambial adotada. Para este interlocutor, a afirmação de que Fernando Henrique colocou ‘‘uma raposa para cuidar do galinheiro’’ - numa referência ao fato de que Fraga atuou até agora como assessor do megainvestidor Georges Soros até entrar para o governo Fernando Henrique - ‘‘é análise de especulador analista, com interesses no mercado’’.
Para Fernando Henrique é justamente o fato de Fraga ter atuado como assessor de um grande investidor que o credencia para o posto, pois saberá conduzir as reações às especulações do mercado financeiro. ‘‘Ele conhece muito bem o outro lado e saberá fazer o contraponto’’, argumentou um assessor do presidente. ‘‘Ele é um exímio operador’’, disse, acrescentando que ‘‘estão todos aliviados’’ no governo, porque estavam se ‘‘sentindo à deriva.’’ Segundo os auxiliares mais próximos do presidente, Chico Lopes fez o ‘‘rito de passagem’’ do modelo cambial baseado em bandas para o câmbio flutuante. ‘‘O Gustavo Franco não fez, então o Chico teve de fazer’’, comentou um assessor palaciano.
No Planalto, a escolha de Fraga Neto significou o fortalecimento político do ministro Malan. ‘‘Ele é um homem ligado ao Malan’’, disse um interlocutor, afirmando que Fraga foi aluno do ministro da Fazenda, mas que foi de Fernando Henrique a decisão de chamá-lo para o posto.
Os assessores palacianos descartam que a troca na presidência do BC esteja relacionada com as novas negociações do Brasil com o Fundo Monetario Internacional. ‘‘Não, em hipótese alguma’’, afirmou um assessor. Ontem o presidente manteve sua agenda normal de despachos. Pela manhã, sem terno e trajando apenas uma camisa branca, ele recebeu o governador do Paraná, Jaime Lerner, e à tarde recebeu do presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA). ‘‘O astral do presidente está muito bom’’, contou Lerner.
De acordo com esses assessores, a modificação na presidência do BC - menos de uma semana após a aprovação do nome de Chico Lopes pelo Senado - foi feita ‘‘em sintonia com o Congresso, com o presidente do Congresso’’. Este assessor também informou que as mudanças na diretoria do Banco Central são ‘‘fundamentais, de longo prazo, definitivas’’. A indicação formal de Fraga e dos demais diretores do Banco Central deverá ser feita após o Carnaval.

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