Agentes da Polícia Federal no bairro da Lapa em São Paulo: operação envolveu sete unidades da federação
Agentes da Polícia Federal no bairro da Lapa em São Paulo: operação envolveu sete unidades da federação | Foto: Marcelo Gonçalves/Sigmapress/Estadão Con



Dois servidores do escritório do Ministério da Agricultura e do Abastecimento (Mapa) em Londrina estão entre os 38 presos ou com mandados de prisão decretados na Operação Carne Fraca, deflagrada nesta sexta-feira (17) pela Polícia Federal. São eles: Juarez José de Santana e Luiz Carlos Zanon Júnior. Considerada a maior já realizada pela PF, a operação envolveu 1.100 policiais em seis Estados: Paraná, São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Goiás e no Distrito Federal.

As investigações tiveram início entre fevereiro e março de 2015 com objetivo de desarticular uma organização criminosa liderada por fiscais agropecuários federais e empresários da agroindústria. Foram detectadas irregularidades em todas as 40 empresas investigadas. Elas subornavam os fiscais que faziam "vistas grossas" nas inspeções realizadas pelo Mapa.

Entre os alvos da operação, estão executivos de alguns dos maiores frigoríficos do País, como BRF e JBS. "A verdade é que essas empresas não prezam pela qualidade efetiva da carne ou do alimento que vem para a sociedade", lamentou o o delegado da PF, Maurício Moscardi Grillo, um dos responsáveis pela Operação Carne Fraca, durante entrevista coletiva, em Curitiba.

Segundo ele, os agentes públicos usavam seu poder fiscalizatório para facilitar a produção de alimentos adulterados, emitindo certificados sanitários sem qualquer análise efetiva. Das diversas maneiras de burlar a legislação, há casos graves, como usar ácido ascórbico e outras substâncias químicas para "maquiar" a aparência e o cheiro de carnes estragadas.

Até mesmo a merenda escolar comprada pelo governo do Paraná sofreu adulteração: não apresentava o percentual de proteína animal contratado. Era misturada a fécula de mandioca ou proteína de soja. "A fécula de mandioca e a proteína da soja são muito mais baratas do que a carne e, na análise pericial do Mapa, saía que o produto tinha a quantidade suficiente de proteína, mas não era proteína da carne", exemplificou o delegado.

A Justiça Federal no Paraná expediu 309 mandados judiciais, sendo 27 de prisão preventiva, 11 de prisão temporária, 77 de condução coercitiva e 194 de busca e apreensão, em residências e locais de trabalho dos investigados e em empresas supostamente ligadas ao grupo criminoso.

Segundo a PF, o líder do esquema era o fiscal Daniel Gonçalves Filho, que foi superintendente do escritório do Mapa no Paraná entre 2007 e 2016. Ele atuava em parceria com pelo menos outros oito servidores do órgão, além de Flávio Evers Cassou, atual executivo da Seara Alimentos, ligada à JBS, que também atuou como fiscal agropecuário entre 2009 e 2014.

Em seu despacho, o juiz Marcos Josegrei da Silva, da 14ª Vara Federal de Curitiba, explicou que as investigações foram motivadas por irregularidades denunciadas por um fiscal agropecuário federal da Superintendência Federal de Agricultura no Estado do Paraná. No depoimento à PF, esse fiscal afirmou que o frigorífico Peccin, com sede em Curitiba, adulterava carne estragada com ácido ascórbico e comprava notas fiscais falsas de produtos com Serviço de Inspeção Federal (SIF) para comercializá-las. Após deflagrada a operação, o Mapa mandou interditar duas unidades do Peccin, de Jaraguá do Sul (SC) e de Curitiba.

MERENDA
Sobre a merenda escolar, a assessoria da Secretaria de Estado da Educação (Seed) informa em nota que "o Estado faz um rigoroso controle de qualidade de todos os itens da merenda". E explica que, em caso de inconformidade, o produto é substituído. Sobre eventuais fornecedores que não entregam o produto em conformidade, a Seed garante que suspende os contratos com eles e os impede de contratar novamente com o Estado.

A reportagem não conseguiu contatar os acusados, nem seus advogados (com Folhapress).

mockup