Londrina fica 'esvaziada' durante férias universitárias
Descanso dos estudantes vai durar três meses. Com o retorno de boa parte deles às suas cidades de origem, menor movimento impacta na economia
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segunda-feira, 05 de janeiro de 2026
Descanso dos estudantes vai durar três meses. Com o retorno de boa parte deles às suas cidades de origem, menor movimento impacta na economia

Com o fim de mais um ano letivo na academia, as férias das universidades londrinenses esvaziam a cidade a partir de dezembro, com boa parte dos alunos que não são pés-vermelhos retornando aos seus municípios de origem. A maior delas, UEL (Universidade Estadual de Londrina), finalizou o calendário da graduação no dia 12 de dezembro, com a retomada das aulas marcada para 2 de março de 2026. Os comércios da região perdem a sua clientela fiel por alguns meses, com a volta à normalidade e um “boom” em seus serviços a partir de fevereiro.
Beatriz Nascimento, de 18 anos, está entre as 25 mil pessoas que formam a comunidade interna da UEL, incluindo estudantes, professores e servidores técnico-administrativos. Nascida em Santos (SP), deixou a cidade litorânea no primeiro trimestre de 2025 e se mudou para Londrina, finalizando o primeiro ano de Artes Cênicas em dezembro. “Antes eu morava em um pensionato na região perto da faculdade, recentemente me mudei para um dos condomínios localizados no Beco universitário”, contou a jovem.
Por conta da proximidade com a UEL, frequenta o “mercadinho do beco” e busca se locomover a pé para economizar. Nascimento voltou para Santos no dia 17 de dezembro para retornar a Londrina somente na última semana de fevereiro, a anterior à retomada das aulas. Disse ainda que sempre que estiver de férias, irá para a casa da família.

'Zona limitada'
Outro paulista, Eduardo Sousa se formou em Química e já engatou no Mestrado em Ensino de Ciências e Educação Matemática, dividindo sua rotina entre os estudos e a docência na rede estadual. Natural de Piracicaba (SP), veio para Londrina em 2019 como calouro, e retornou temporariamente em dezembro para passar as férias.
Ele contou que passou seis “longos” anos morando em um condomínio de prédios ao lado da UEL, sendo que se mudou meses atrás para a região central. Durante este período, aproveitou os serviços de uma galeria comercial da área por conta da proximidade com o seu apartamento. “A gente estava sempre indo ali no mercadinho, que como é próximo da UEL, dá para ir a pé, e nos eventos do beco. Essa zona é bem limitada quanto às coisas que tem aqui próximo, então o restaurante, a academia e o mercado sempre foram uns dos lugares mais frequentados”.
O mestrando disse que busca retornar a sua cidade natal em todas as datas comemorativas ou período de férias, quando não é impossibilitado por conta do valor das passagens de ônibus. “Quando acabavam todas as disciplinas, eu já ia para Piracicaba, porque eu não tinha motivos para estar em Londrina. Geralmente eu voltava para cá só quando as aulas voltavam”, pontuou.

Atender a demanda
Considerando a localização, Sousa passou a frequentar uma academia na Rua Prefeito Faria Lima, assim que foi inaugurada em setembro do ano passado. O espaço fica a dez minutos a pé de uma das entradas do campus, o que impulsionou o fato de universitários constituírem cerca de 40% da clientela - no total, são aproximadamente 1.800 alunos.
A gerente Dhesicka da Cunha contou que a estratégia de abrir a unidade no local se deu por conta da demanda. “Não tem outras academias ao redor, então acabamos agregando o pessoal daqui, tanto da universidade, quanto quem trabalha e mora.”
Com a adequação do calendário letivo, as férias do fim de ano na UEL vão até março. Cunha informou que espera uma queda no movimento nos próximos meses, mas que está buscando maneiras de compensar o impacto financeiro. “Alguns alunos já passaram para cancelar a matrícula, como eles vão para a cidade deles e voltam só daqui três meses. Tem a questão de ser final de ano também, acho que todas as academias vão sentir essa queda, porque muita gente começa a viajar, sai de férias, já não é mais a mesma rotina”, considerou.

Contornar as implicações econômicas
A profissional salientou que o prejuízo não será tão grande por conta de pessoas que fazem o contrário: vêm para Londrina aproveitar as férias. “Já tem alguns alunos que se matricularam para passar um mês aqui, então acho que vai ser um pouco compensativo. Vai faltar uma parte, mas em outra vai acabar suprindo”, almejou Cunha.
Outra expectativa da gerente é para o primeiro trimestre do ano, quando os estudantes devem se dirigir novamente a Londrina por conta da iminente retomada das aulas. “Contamos com as rematrículas e com os alunos novos da UEL, que vão mudar para cá e acabar nos procurando por ser mais próximo, mais prático. Lá para fevereiro, março, acho que começa a ter um acréscimo na quantidade de matrículas.”
Menor consumo na região
Outro empreendimento da área que será afetado nos próximos meses é uma distribuidora de bebidas localizada na mesma rua que a academia e que encontra nos universitários boa parte de sua clientela. Nos meses de recesso, o comércio perde cerca de 20% do movimento.
Para evitar os prejuízos financeiros, Adriano Almeida, o proprietário, informou que “fazemos o caixa nos meses anteriores, com o faturamento controlado mês a mês”. Ele esclareceu que “perde de um lado, mas ganha do outro” por conta das festas de fim de ano, que minimizam o impacto nas vendas. “Esse período de datas festivas, como Natal, Réveillon, e confraternizações, ajuda a preencher as lacunas nas vendas com a ausência dos estudantes”.
Menos corridas para motoristas
Além dos impactos aos comerciantes, a dispersão dos alunos faz falta nas ruas para os motoristas de aplicativo. Tendo Londrina como polo universitário, as mais de dez instituições de ensino superior reforçam a economia do município, se apresentando como fontes indiretas de renda a quem se dedica ao transporte de passageiros.
Renato Vandré, diretor regional da Amotra (Associação dos Motoristas e Trabalhadores de Aplicativos), relatou que é regra em todo o âmbito educacional: as férias “abatem” o número de viagens na locomoção por aplicativos. “A UEL, pela quantidade de alunos, mexe com toda a economia dos bairros na área. O Jardim Maracanã, a Faria Lima, Jardim Bandeirantes”, exemplificou.
Disse ainda que “cai o movimento, cai o faturamento”, adicionando na lista o Jardim Sabará, na zona oeste. “A região vai ficar mais isolada para os carros, até para atender a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) Sabará. Vai diminuir o fluxo de carros e quando um morador solicitar uma viagem, vai estar mais cara”, previu, com a experiência de quatro anos rodando a cidade.
Migrar ou não
Vandré considerou que é uma necessidade dos motoristas a migração para outras regiões no período de descanso da UEL, tanto no meio quanto no fim do ano. Já Valter Nascimento, motorista de aplicativo desde 2020, relatou que a demanda diminui na cidade toda, sendo importante não abandonar completamente a área para que os munícipes restantes tenham a opção de locomoção.
“Temos que levar em conta que tem estudantes que fixaram moradia ali e funcionários do Hospital das Clínicas e da Clínica Odontológica (ambos localizados no campus), então o movimento fica fraco, mas não para totalmente”, considerou.
Todavia, um contraponto positivo vem a partir do retorno dos graduandos, relatou o homem. “O primeiro mês do ano é bem complicado, diminui o volume, mas ainda dá para continuar trabalhando. Quando os alunos voltam aumenta o preço dinâmico no aplicativo, porque a demanda aumenta”.
Vandré completou dizendo que “sempre que as aulas voltam em todas as universidades de Londrina, o número de corridas aumenta significativamente. É bom trabalhar como motorista de aplicativo praticamente o ano todo, menos quando não tem aula, que a demanda é muito baixa”.
Sazonalidade imobiliária
Outra maneira que a UEL faz a economia de Londrina girar é no âmbito do setor imobiliário, com a presença de dezenas de condomínios a distância de uma caminhada da instituição que focam no aluguel para universitários.
Este é um grande enfoque de Nelson Navas, dono de imobiliária, que tem 50% de seus inquilinos vivendo na região. Disse ainda que a área comporta cerca de 2.000 imóveis para aluguel no total, entre todos os empreendimentos, e não somente a Hogar.
A lucratividade das imobiliárias começa já em dezembro, com alunos que se consolidaram em Londrina buscando opções de moradia em outras regiões, como o centro. Já entre janeiro e fevereiro, começa a caçada de pré-calouros vindos de outras cidades por apartamentos, que preferem o auxílio de uma empresa especialista.
“Eles se sentem mais confortáveis nos procurando, porque estamos acostumados a lidar com o aluno, o pai, a mãe. Se tiver algum problema, tentamos ver a questão do seguro, de um caucionamento”, exemplificou Navas.
O proprietário disse ainda que a imobiliária investe em uma preparação a partir do primeiro contato dos novos pés-vermelho. “Normalmente, temos mais gente nos procurando do que imóveis disponíveis. Então, o que pedimos é que os clientes vão até as imobiliárias que fazem esse tipo de trabalho para que tenhamos imóveis disponíveis para atender essa demanda, já ter uma quantidade certa de pessoas”, informou Navas.
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Heloísa Gonçalves
Repórter com atuação em Educação, Saúde e Cidades.


