Lojas de 1,99 se adaptam e movimentam R$ 4,5 bi ao ano
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domingo, 24 de março de 2002
Agência Estado 
São PauloApós a criação do Plano Real, um tipo de comércio se expandiu no País: as lojas que vendiam todos os seus produtos ao preço único de R$ 0,99. Com a desvalorização da moeda frente ao dólar, em 1999, porém, esperava-se que essas lojas, que sobreviviam à base de produtos importados, estivessem chegando ao fim. Puro engano: as lojas aumentaram seu preço único para R$ 1,99 e o mais importante passaram a vender basicamente artigos fabricados aqui no Brasil.
Existem 16,5 mil lojas de R$ 1,99 espalhadas pelo Brasil. Isso significa uma média de três lojas para cada município. Os números que envolvem o setor são impressionantes. São cerca de 100 mil empregos gerados, direta e indiretamente. Esse tipo de negócio movimenta, anualmente, cerca de R$ 4,5 bilhões e começa, agora, a ganhar o gosto de uma nova camada da população: as classes B e C.
O setor cresceu tanto que já existe até uma indústria voltada especificamente para ele. Hoje, cerca de 70% dos produtos encontrados nas prateleiras dessas lojas são nacionais, segundo o empresário Eduardo Todres, organizador da Feira 1,99 Brasil, que reúne, a cada seis meses, fabricantes e representantes do setor.
A Feira 1,99 Brasil está na sua quarta edição e ocorre sempre nos meses de março e outubro, para mostrar aos lojistas as últimas novidades que deverão ter grande saída no Dias das Mães e no Natal. Na última edição do evento, realizada semana passada em São Paulo, estavam presentes cerca de 400 fabricantes nacionais. O crescimento do setor, para Todres, está ligado ao fato de que, aos poucos, as lojas estão atingindo um público diferente, mais exigente. Hoje o perfil do consumidor de lojas de R$ 1,99 é de difícil especificação, pois elas atingem todas as classes sociais, acredita. Até por isso, os fabricantes têm de se desdobrar para produzir artigos que chamem a atenção desses novos compradores.
A variedade de produtos oferecidos nessas lojas tem aumentado muito. Numa delas, localizada na região oeste de São Paulo, existem 5 mil produtos sendo vendidos. Segundo a subgerente da loja, Francilda Ferreira de Oliveira, o que mais vende lá são utensílios de cozinha. O estoque precisa ser renovado, em média, a cada 15 dias, porque o giro das mercadorias é muito grande.
Aos produtos tradicionais juntaram-se itens sofisticados, como artigos de vestuário, luminárias e até alguns produtos eletrônicos. E, com a expansão dos negócios, o perfil da lojas também foi se modificando. Muitos estabelecimentos usam computadores para controlar seus imensos estoques.
Para quem investe nesse tipo de negócio, há uma clara vantagem, que é o fato de que inadimplência e falta de crédito são problemas que passam longe, uma vez que as vendas são feitas todas à vista. Por outro lado, tem uma margem de lucro muito pequena, de cerca de 15%. Por isso, é preciso comprar artigos em grande quantidade e de saída garantida.
O professor de gerência de marcas da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Paulo Sérgio Quartiermeister, arrisca dizer que as lojas de R$ 1,99 viraram uma categoria de varejo, como as lojas de conveniência. São lojas sem marca, mas com uma característica própria, que é o preço, que fica na cabeça do consumidor.


