Folha Quais são as orientações que o senhor daria às pessoas que sonham em ter o imóvel próprio?
Mauro Halfeld Quem já tem uma família definida e não pensa em mudar de cidade deve lutar para fugir do aluguel. Caso contrário irá pagar dezenas de vezes o valor do imóvel locado ao proprietário. Ao contrário, quem conseguir comprar a casa própria ainda jovem pode, com muito menos esforço, adquirir outros imóveis para gerar renda de aluguel. Isso pode significar uma excelente forma de previdência privada.
Folha Financiar a casa própria é aconselhavél? Onde buscar as melhores linhas de financiamento? Vale a pena assumir esse compromisso para fugir do aluguel?
Halfeld Quem tem renda familiar inferior a R$ 2.000,00 deve procurar a carta de crédito do FGTS nas agências da CEF. Os juros são de 8% ao ano mais a correção da TR (substituta da correção monetária). Essa taxa é boa para o mutuário, se comparada com os preços dos aluguéis. Por outro lado, quem ganha acima de R$ 2.000,00, deve pensar muito antes de tomar o financiamento. Os juros são de TJLP (taxa de juros de longo prazo) hoje na casa de 10% a.a., tendendo a subir bastante, mais 5,5% fixos. Isso não é pouco. Nesse caso, o melhor é poupar bastante antes para financiar o mínimo. Uma dica importante: evite a Tabela Price. As prestações costumam subir muito nesse Sistema. É preferível ser mais conservador e optar pelo Sistema SAC ou SACRE. No livro eu explico em detalhes as vantagens e desvantagens de cada um.
Folha Em caso de construir a casa própria, que cuidados o futuro proprietário deve ter para garantir, quando necessário, que a venda seja mais fácil?
Halfeld Construir a própria casa é uma grande alternativa para os que desejam evitar os juros bancários ou para os que sonham com uma casa diferente. Você constrói de acordo com seu orçamento. Isso dá uma grande flexibilidade. Quem está pagando aluguel pode mudar-se logo, antes de a obra terminar completamente. A economia feita será aplicada na construção. Mas tudo isso dá trabalho. É preciso administrar diferentes equipes. A inexperiência pode levar a erros e desperdícios. Há sempre o risco de sonhar demais e ficar com a obra inacabada, o que seria um ''abacaxi''. Outra dica: evite usar suas habilidades artísticas. É preferível fazer uma casa no padrão estético do bairro. É preferível ter a casa mais simples de um bom bairro do que a casa mais sofisticada de um bairro ruim.
Folha Entre as várias opções de investimento, em que lugar fica o investimento em imóveis?
Folha No longo prazo, os imóveis rendem mais do que a renda fixa e menos do que as ações. Mas nos últimos anos, durante o Plano Real houve uma anomalia. Os juros altíssimos pagos pelo governo fizeram com que a renda fixa tenha sido imbatível. Quem investiu em imóveis e em ações saiu triste. Mas a lógica voltou a funcionar em 2002. Nenhum país do mundo consegue pagar juros altos por muito tempo. A dívida torna-se impagável. Estamos em uma mudança de ciclo. Quem perceber isso e partir para imóveis e ações deve ser bem recompensado nos próximos cinco anos.
Folha Em que situação investir em imóveis passa a ser o melhor negócio?
Halfeld O imóvel impõe disciplina. Um jovem casal corta despesas não essenciais para obter seu primeiro imóvel. Ao mesmo tempo, a falta de liquidez faz com que todas as decisões sejam muito bem pensadas. Além disso, ao contrário dos investimentos em renda fixa, o dono de um imóvel não fica com o ''dinheiro queimando nas mãos''. Ele não pode sair consumindo o dinheiro em um momento de carência. Essa talvez seja a melhor explicação do porquê todo rico que eu conheço invista em imóveis.
Folha Em seu livro ''Seu imóvel - como comprar bem'', o senhor cita exemplos de pessoas que investiram em imóveis de menor valor e hoje possuem dezenas deles e têm uma boa renda de aluguel. O senhor considera que, ao invés de comprar um imóvel de R$ 100 mil, por exemplo, o aconselhável seria comprar dois de R$ 50 mil?
Halfeld É verdade. O Brasil é um país com milhões de pobres que não têm onde morar. Faltam imóveis para a população de baixa renda e sobram imóveis para a classe alta. Como resultado, o aluguel para o pobre é caro (mais de 1,5% ao mês sobre o preço do imóvel) e o aluguel para o rico é barato (menos de 0,7% ao mês sobre o preço do imóvel). Uma tremenda contradição. Quem souber explorar essa distorção pode ganhar muito dinheiro. E a sociedade, no fim, vai agradecer. Em outras palavras, é preferível pulverizar as aplicações em imóveis, comprando pequenas propriedades, simples, não sujeitas a modismos e itens luxos que amanhã podem ser classificadas como ''brega''.
Folha Quando o dinheiro não é muito, o equivalente a um imóvel de nível médio, qual a melhor opção: renda fixa, poupança, imóvel, bolsa?
Halfeld Hoje, mais do que nunca, eu diversificaria. Mantenha uma reserva de emergências em fundos IGPM que acompanham a inflação. Depois pense em um pequeno imóvel comercial como vaga de garagem ou uma loja de rua. Para quem suporta as oscilações, as bolsas são uma grande opção neste momento. Elas estão muito baratas. Mas tem que investir devagarinho e ter muita paciência.
Folha Comprar terrenos para investimento é uma boa escolha? Como decidir por um terreno comercial ou um residencial?
Halfeld Costuma ser um bom negócio. Não sofrem depreciação com o uso, como em um apartamento luxuoso. Além disso você vira sócio de seus vizinhos. Se o bairro crescer, os ganhos serão certos. Mas tem que ficar atento para os riscos de invasão e para os IPTUs progressivos que punem os terrenos desocupados.
Folha O senhor considera que há algum ramo de atividade econômica em que o melhor é investir no negócio próprio em vez de ter garantido, pelo menos, um imóvel próprio para morar?
Halfeld Os négocios próprios são muito arriscados. Podem fazer fortunas do dia para a noite. Mas podem também destruir um patrimônio construído ao longo de muitos anos. Uma boa estratégia é ir fazendo uma carteira de pequenos imóveis com parte dos lucros obtidos no negócio próprio. Isso dá disciplina e estabilidade emocional ao empresário.
Folha Quais as perspectivas de rentabilidade de imóveis nos próximos anos?
Halfeld Considero Londrina e Maringá entre as melhores cidades para se investir em imóveis no Brasil. Os preços sobem onde há bons empregos. Por exemplo, entre 1968 e 2002, os imóveis residenciais em Curitiba tiveram uma valorização média de 3% ao ano acima da inflação medida pelo IPC-Fipe. Somando-se a uma renda do aluguel, isso pode chegar a uns 7% ao ano, acima da inflação. Parece pouco, mas não é. Ao longo de 34 anos, isso é suficiente para multiplicar por nove o patrimônio de um investidor, além da correção pela inflação. Mais uma vez: todo rico que eu conheço investe em imóveis. Eles compram por causa da segurança e da disciplina. Como os ganhos são bons, mas lentos, ao final de algumas décadas, estão ainda mais ricos.

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