Itaberá - As linhas de transmissão de Furnas que partem de Itaipu em direção à Grande São Paulo estão expostas a riscos que vão de uma simples pipa a uma sequência de raios capaz de produzir apagões. A reportagem percorreu parte dos 306 quilômetros entre Tijuco Preto, em Mogi das Cruzes, e Itaberá, no sudoeste paulista, onde teria ocorrido o problema que resultou no apagão de novembro do ano passado. No bairro de Aparecida, em Capão Bonito, crianças não hesitam em escalar as torres para recuperar pipas. Não há vigilância, cerca ou proteção. ''Outro dia ficamos sem luz porque um rapaz subiu na torre para se suicidar'', lembra o aposentado João Gabriel de Oliveira, de 66 anos.
Os linhões cortam fazendas e áreas de reflorestamento em 17 municípios da região. Este ano, por causa das chuvas, as torres ficaram livres da ameaça dos incêndios. Em Itaberá, são as descargas elétricas que ameaçam o sistema. O produtor rural Wanderlei Matuchetk, da fazenda Pinhalzinho, já perdeu a conta de quantas vezes os raios atingiram o linhão que corta sua propriedade. Ele diz que os temporais com ventos fortes e raios fazem as linhas balançar. ''A gente sabe que para mover aqueles cabos de aço, precisa de muita força, mas aqui venta demais.'' Na última quarta-feira, ele trabalhava na recomposição do telhado de um paiol, avariado pela tempestade da noite anterior.
Do sítio de Matuchetk, produtor de soja e milho, é possível ver a subestação de Furnas, apontada como responsável pelo apagão que deixou 16 Estados sem energia no apagão. Na casa da família não faltou luz, mas ele viu helicópteros sobrevoando as linhas. ''Agora está tudo quieto, não vem mais ninguém.''
A subestação de Itaberá está no centro geográfico das linhas de transmissão que levam a energia de Itaipu para o Sul e o Sudeste. É onde ocorrem as maiores oscilações elétricas, fato que é agravado por um problema meteorológico: ali a incidência de raios é muito grande. A região é alta, plana e sem barreiras naturais. ''Muitas vezes aqui está caindo um mundo de chuva e trovão e na cidade nem chuva tem'', diz o agricultor Joaquim Manoel Ferraz, de 63 anos, vizinho da subestação. ''Dizem que o linhão chama raio.''
O prefeito de Itaberá, Walter Sérgio de Souza Almeida (DEM), diz que ainda não teve uma explicação para o apagão e reclama que a cidade ficou com fama negativa. ''Aqui nem apagou.'' A cidade recebe energia de um sistema secundário, mas os moradores reclamam das constantes interrupções.
O gerente de Furnas em Itaberá, Benedito Cruvinel Amorin, não é autorizado a dar entrevistas, mas admitiu que o trecho é crítico. ''A área tem muita turbulência.'' Um técnico que presta serviços a Furnas disse que o sistema foi concebido para desligar por alguns segundos em caso de sobrecarga, mas se cai outro raio em seguida, não religa automaticamente. (J.M.T.)

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