Clóvis Rossi
Agência Folha
De Davos
O presidente mexicano Ernesto Zedillo cunhou ontem em tom crítico, uma expressão (‘‘globafobia’’) que, no entanto, descreve à perfeição o sentimento de uma parcela importante da sociedade planetária, que sente medo (quase pânico) diante do fenômeno da globalização.
Zedillo estava comentando, em sessão matinal do encontro anual 2000 do Fórum Econômico Mundial, ‘‘a peculiar aliança (entre) forças da extrema esquerda, da extrema direita, grupos ambientalistas, sindicatos dos países desenvolvidos e alguns auto-designados representantes da sociedade civil’’. Objetivo da aliança, segundo a ironia do presidente mexicano: ‘‘Salvar o povo dos países em desenvolvimento do desenvolvimento’’. Para Zedillo, tais grupos ‘‘estão fortemente unidos por sua globafobia. Ardentemente e às vezes em tom altruístico, cada um lança seu próprio motivo para ser globafóbico’’.
Ironias e críticas à parte, Zedillo não está sozinho na constatação de que uma parcela da humanidade sente fobia em relação à globalização. O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, à sua maneira, tratou igualmente do tema, ao dizer: ‘‘A mudança está abrindo novos horizontes, mas há medo do que existe dentro desses horizontes’’. A governadora do Estado norte-americano de Nova Jersey, Christine Todd Whitman, sacou do fundo do baú o filósofo francês Paul Valéry para, no fundo, dizer o mesmo que Blair. ‘‘O futuro já não é como costumava ser’’, foi a citação de Valéry usada por Todd Whitman, o que, de resto, só prova que as inquietações do ser humano não são recentes.
A ‘‘globafobia’’ tampouco é recente, mas o encontro de Davos está demonstrando que o que houve em Seattle (EUA), durante a malograda Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio, no mês passado, deu um sentido de urgência aos medos. ‘‘Foi um grito de despertar’’, disse John Sweeney, presidente da poderosa central norte-americana AFL-CIO, referindo-se às manifestações que levaram o prefeito de Seattle a decretar toque de recolher, tal o seu vulto. Parece ter sido mesmo, a ponto de contaminar até o empresariado, em geral fascinado com a globalização, pelo menos no que ela tem de expansão do livre mercado.
O presidente da Renault francesa, Louis Schweitzer, comparou o livre mercado puro à licença para deixar a raposa solta no galinheiro. ‘‘As galinhas não se divertem. E pode não ser bom também para a raposa, porque, depois de comer todas as galinhas, ela pode eventualmente morrer de fome’’, comparou Schweitzer.
O presidente da Renault traçou a sua própria versão da ‘‘globafobia’’: ‘‘A maioria dos países reconhece hoje que uma economia eficiente é um pré-requisito para o crescimento. Mas é igualmente verdade que um mercado livre e uma economia eficiente não conduzem à felicidade’’.

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