Lideranças locais discutem retomada de voos para Londrina
Concessionária e Codel vão trabalhar em pesquisa do perfil do passageiros para tentar reverter queda na movimentação, que chega a 12% em um ano
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sábado, 27 de setembro de 2025
Concessionária e Codel vão trabalhar em pesquisa do perfil do passageiros para tentar reverter queda na movimentação, que chega a 12% em um ano

O investimento milionário na melhoria da infraestrutura do Aeroporto Governador José Richa, em Londrina, ainda não se reflete no movimento de passageiros no terminal. Nos últimos anos, pelo menos cerca de R$ 500 milhões foram aplicados pela Prefeitura de Londrina e pela Motiva, administradora do aeroporto, em desapropriações de áreas do entorno, em segurança aeroportuária e na modernização das instalações. Mas ao contrário do previsto, as obras não contribuíram para o fortalecimento da aviação regional e o número de usuários vem caindo. Entre janeiro e julho de 2025, a redução foi de quase 12% na comparação com o mesmo período do ano anterior. A razão é a escassez de voos chegando e partindo da cidade.
Nos primeiros sete meses deste ano, 418.288 passageiros embarcaram ou desembarcaram no aeroporto de Londrina. No ano passado, no mesmo intervalo, foram 474.777 embarques e desembarques.
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No mesmo período, de janeiro a julho, a movimentação de aeronaves recuou 60,35%, baixando de 10.807, sendo nove voos internacionais, em 2024, para 4.284 neste ano, sem registro de voos estrangeiros. Os dados estão disponíveis no site da Motiva.
Lideranças políticas e representantes do setor produtivo local temem que a dificuldade logística prejudique o desenvolvimento econômico do município e tentam convencer as empresas aéreas a investirem em novos voos partindo de Londrina. Nos últimos meses, foram feitas reuniões com a Azul, a Abear (Associação Brasileira das Companhias Aéreas) e mais recentemente, com a Latam, em 18 de setembro, com a Motiva, na sexta-feira (26). Os encontros foram articulados pela Comissão de Desenvolvimento e Infraestrutura da Região de Londrina, coordenada pela deputada federal Luísa Canziani (PSD-PR).
Pesquisa vai identificar perfil dos passageiros
Na última sexta-feira, a comissão discutiu estratégias para o fomento à aviação regional. A concessionária irá realizar pesquisas para identificar o perfil dos passageiros do transporte aéreo e também rodoviário em Londrina. Os dados do estudo servirão para embasar negociações e estratégias da empresa. "Precisamos entender quais são os indutores de demanda. A pergunta é simples: quem vem para Londrina?", destacou a gerente executiva de Negócios Aéreos da Motiva, Graziella Delicato.Segundo a administradora do aeroporto, em agosto deste ano, a taxa de ocupação de voos em Londrina chegou a 88%, "Passar de 80% de ocupação é um sinal de que precisa de mais voos, mas a gente vê que, no Brasil, as companhias saíram muito machucadas da pandemia", afirmou Delicato, reiterando o momento desafiador enfrentado pelas companhias aéreas.
A gerente lembrou que a Motiva segue buscando diálogo com as empresas de aviação sobre o potencial de Londrina e apontou a ExpoLondrina e os festivais que acontecem na cidade como "grandes vetores de atração". "Mas não sabemos de onde estão vindo essas pessoas. Qual a vocação de Londrina, pensando no mercado aéreo?", disse a gerente. A pesquisa deverá responder a esses questionamentos.
O presidente da Codel (Instituto de Desenvolvimento de Londrina), Paulo Henrique Ferreira, avaliou a reunião como "extremamente positiva". "A Motiva nos apresentou a possibilidade de conceder algumas pesquisas que podem ser aplicadas em Londrina e que nós vamos aplicar por meio da Codel. Esse levantamento deve durar um ano para entendermos o comportamento do usuário, de como ele utiliza os modais da cidade", disse.
"Nós vamos receber essas pesquisas, analisar como organizaremos tudo isso e colocar em aplicação para entender os dados e o comportamento do usuário pelo período de um ano. O resultado vai permitir que a gente possa acionar as companhias aéreas, explicando a elas de fato como o nosso passageiro se comporta e qual demanda será gerada”, detalhou.
No dia 18 de setembro, uma reunião com a Latam frustrou as expectativas, após representantes da Companhia descartarem interesse em abrirem mais linhas na cidade. Nesta reunião estiveram presentes o prefeito Tiago Amaral (PSD), o presidente da Codel (Instituto de Desenvolvimento de Londrina), Paulo Henrique Ferreira, os deputados estaduais Tercilio Turini (MDB) e Jairo Tamura (PL) e o deputado federal Diego Garcia (Republicanos-PR).
Canziani informou, via assessoria de imprensa, que o intuito das reuniões com a Abear (Associação Brasileira das Companhias Aéreas) e a Latam era entender o mercado da aviação regional e as necessidades e dificuldades das companhias para operar no aeroporto de Londrina. A deputada também pretende reunir-se com a Gol.
A parlamentar destacou que como as companhias operam com um cronograma semestral de voos, a perspectiva é que a rota Curitiba-Londrina seja restabelecida no primeiro semestre de 2026. "No entanto, entendemos o atual cenário, os custos envolvidos na operação e as melhorias que ainda precisam ser executadas no aeroporto de Londrina", declarou Canziani.
Desde o início de agosto, quando a Azul reformulou sua malha viária, o aeroporto de Londrina passou a oferecer apenas um voo direto diário para Curitiba e um voo direto diário no sentido inverso.
Turini demonstrou insatisfação com o resultado da reunião da semana passada e criticou o posicionamento da Latam que, segundo ele, teria sido incisiva em afirmar que o foco da companhia é operar em aeroportos maiores, de grande concentração de passageiros, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília, e que não planeja criar voos entre Londrina e Curitiba neste momento. “O município de Londrina ficou 30 anos discutindo a melhoria do aeroporto, que é fundamental para o desenvolvimento da cidade e da região. O município investiu muito recurso para fazer as desapropriações, que eram uma exigência da Infraero, e passou todos os terrenos para o patrimônio da Infraero. É uma fortuna. Se fossem atualizados, hoje, esses valores poderiam chegar perto de R$ 2 bilhões”, calculou.
O deputado disse ainda que, durante a reunião, a companhia aérea teria aventado a retomada de um voo direto de Londrina para São Paulo, mas sob a condição de o governo do Paraná reduzir a alíquota do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) incidente sobre o combustível aéreo para baratear o custo operacional da companhia. “Eles falaram que podem até avaliar a possibilidade de colocar um outro voo para Guarulhos, mas jamais para Curitiba e de Curitiba para Londrina. Então, nós continuamos na mesma. Estamos também esperando uma resposta da Gol para ver se ela se interessa.”
Na reunião, comentou Ferreira, o prefeito se comprometeu a “buscar caminhos” para negociar o incentivo fiscal junto ao governo do Estado, que implicaria a redução do imposto sobre o combustível de aviação. Com o incentivo, a expectativa é de barateamento das passagens.
Motiva diz que aeroporto é economicamente viável
Por quase três décadas, a sociedade londrinense discutiu a instalação do ILS no aeroporto de Londrina. A falta do equipamento que auxilia pousos em condições de baixa visibilidade era apontada como um dos principais entraves para o avanço do transporte aéreo na cidade.
No final do mês passado, a FAB (Força Aérea Brasileira) confirmou a aquisição do ILS de uma empresa italiana e informou que o equipamento chegaria ao Brasil nesta semana e em Londrina, em 10 de outubro. O instrumento deve passar por testes técnicos e logísticos antes de entrar em operação, em 10 de dezembro, data do aniversário de 91 anos do município.

Prestes a encerrar a novela do ILS, a cidade tem agora o desafio de voltar a atrair o interesse das companhias aéreas. “A falta de voos na cidade de Londrina, a segunda maior do Paraná, é lamentável, é prejudicial”, avaliou a presidente da Acil (Associação Comercial e Industrial de Londrina), Vera Lúcia Antunes, que aposta na instalação do ILS para fazer decolar o transporte aéreo local. “Tenho certeza que é uma questão de tempo para a gente voltar a retomar mais voos.”
“Num passado de dez, 15 anos atrás, nós tínhamos um voo, uma ou duas vezes por semana, direto para Brasília, nós tínhamos voo direto para Porto Alegre. Mas fomos perdendo. Isso é um desprestígio para a nossa cidade”, afirmou o deputado estadual Tercilio Turini (MDB). “Você investe, você melhora o aeroporto e aí, as empresas falam que não querem operar.”
Apesar da queda na movimentação de passageiros e de aeronaves no terminal londrinense, a Motiva afirmou que o aeroporto segue sendo economicamente viável. Um indicativo, apontou a concessionária, é a alta taxa de ocupação dos voos, de 88%, em agosto. "A quantidade de operações se manterá a mesma neste ano, uma vez que, a partir de outubro, a Azul volta a operar nova frequência para Campinas (SP)", afirmou a administradora do aeroporto. A companhia irá operar com aeronaves do modelo jato, ampliando de 75 para 118 a oferta de assentos em seus voos para o Aeroporto de Viracopos.
A concessionária destacou as obras de melhoria entregues em janeiro de 2025 e informou que viabiliza as adequações necessárias para a instalação do ILS pela FAB.
Embora entenda que a definição de destinos é uma decisão exclusiva das companhias aéreas, a Motiva tem contribuído com as articulações dos meios político e empresarial para fomentar as operações no terminal londrinense. Além da participação nas reuniões, a empresa mantém diálogo com as companhias aéreas sobre a relevância do destino e investe na manutenção da infraestrutura do aeroporto. "Reforçamos que o aumento no número de voos depende de um diagnóstico concreto da realidade regional e de uma atuação conjunta de diversos setores interessados. A Motiva segue acreditando no potencial do aeroporto de Londrina."
A deputada Luísa Canziani (PSD-PR) disse manter contato com a Motiva para discutir várias questões relacionadas ao transporte aéreo regional, mas principalmente, o cumprimento do cronograma de obras exigidas pela Ciscea (Comissão de Implantação do Sistema de Controle do Espaço Aéreo), vinculada à FAB, para a instalação do ILS. "Essas ações buscam o fortalecimento do nosso aeroporto, assim como a retomada urgente do voo Curitiba-Londrina porque acreditamos ser de fundamental importância o restabelecimento dessa conexão."
Procurada pela reportagem, a Azul confirmou o aumento na frequência entre Londrina e Campinas, a partir de outubro, passando de dois para três voos diários, em cada sentido. Atualmente, o aeroporto do interior paulista é o principal hub da companhia, de onde é possível fazer a conexão com mais de 70 destinos nacionais e internacionais. Para a rota Londrina-Curitiba, a Azul não sinalizou a abertura de novos voos diretos entre as duas cidades.
A Latam e a Gol não responderam à reportagem até a publicação da reportagem.(S.S.)
Demanda está aquecida, mas empresas aéreas enfrentam crise
O setor aéreo brasileiro não enfrenta queda de demanda. Pelo contrário, no primeiro semestre deste ano, houve acréscimo de 10% no número de passageiros que circularam pelos terminais do país sobre igual período de 2024. No total, 61,8 milhões de pessoas embarcaram e desembarcaram de voos domésticos e internacionais de janeiro a junho, segundo levantamento realizado pelo Ministério dos Portos e Aeroportos, com base no Relatório de Demanda e Oferta da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil).
Mas nos caixas das companhias aéreas nacionais, o cenário é de crise, com pressões financeira e operacional, provocadas pela valorização do dólar, pela alta do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), pelos atrasos recorrentes nas entregas das aeronaves e pelos gastos elevados com processos judiciais, entre outros fatores. De acordo com a Abear (Associação Brasileira das Companhias Aéreas), no ano passado, os custos dos serviços das empresas que operam no Brasil cresceram 11,3% sobre 2023. As despesas chegaram a R$ 67,2 bilhões.
Nos últimos cinco anos, Latam, Gol e Azul ingressaram com pedidos de recuperação judicial nos Estados Unidos. Esse é um recurso que permite às empresas continuarem operando enquanto fazem ajustes na sua estrutura financeira.
A Latam, a primeira a recorrer à medida, em 2020, conseguiu reverter a situação. A Gol, com dívidas estimadas em R$ 20 bilhões, aderiu ao processo de recuperação judicial no ano passado e ainda tenta equilibrar as contas após ter seu plano de reestruturação aprovado pela justiça norte-americana. A Azul ingressou com o pedido no último mês de maio.
Para fazer frente à crise do setor, as companhias aéreas vêm fazendo reformulações em suas estratégias comerciais. Um dos efeitos dessas readequações é a redução de voos e até o encerramento das atividades em alguns aeroportos. A Azul, por exemplo, somente neste ano, deixou de operar em 14 municípios brasileiros e extinguiu mais de 50 rotas consideradas não lucrativas.
No aeroporto londrinense, é cada vez mais curta a lista de opções de voos. Para Curitiba, por exemplo, os passageiros só têm uma linha direta disponível, de segunda a sexta-feira, às 18h20, pela Azul. Até julho, a companhia mantinha um voo direto para a capital também pela manhã, mas esse trecho foi extinto em 4 de agosto. De Curitiba para Londrina, a empresa também suspendeu o voo da manhã, mantendo apenas o da tarde.(S.S.)


Simoni Saris
Repórter com atuação nas áreas de Economia, Infraestrutura e Agronegócio.




