Lideranças contestam dodos do USDA
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segunda-feira, 16 de junho de 1997
Oswado Petrin 
Uma previsão do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) sobre a safra brasileria de café (superestimada em 28 milhões de sacas), divulgada na semana passada, derrubou o mercado e irritou os cafeicultores. Três personagens experientes da cafeicultura criticaram ontem a previsão do USDA. O presidente da Associação Paranaense de Cafeicultores (Apac), Newton Carneiro; o presidente da Sociedade Rural Brasileira, Luiz Marcos Suplicy Haffers, e o presidente da Bolsa de Cereais e Mercadorias (BCML), Antônio Abrão.
Ao ser entrevistado ontem de manhã por este jornal, o empresário Newton Carneiro considerou irresponsável e fora da realidade a estimativa do USDA. A safra, de fato, será quase 10 milhões de sacas abaixo do previsto pois deve ficar entre 19 milhões e 20 milhões de sacas. O Ministério da Agricultura trabalha com estimativa de 18 milhões de sacas do arábica e 4 milhões de sacas do conilon. Associações estaduais trabalham com números inferiores.
O presidente da BCML, Antonio Abrão, disse que o erro para cima foi de pelo menos 6 milhões de sacas. Ele disse que o mercado, que já chegou a R$ 300,00/saca (exatamente no dia 29 de maio) para cafés excelentes, caiu na sexta-feira para R$ 210,00/saca e ontem voltou a cair (R$ 200,00/saca) no interior do Paraná. Abrão observou, no entanto, que os vendedores ainda não assimilaram a queda. O mercado trabalha em função do impacto causado pela previsão do USDA mas a variável clima pode contrapor esta queda: é que está prevista a entrada de uma frente fria no próximo final de semana. As bolsas trabalham com uma previsão de 20 milhões a 22 milhões de sacas para não abrir muito o diferencial entre a previsão do USDA e a real.
Na Internet A Apac, segundo Newton Carneiro, trabalha com previsões seguras e analisadas em todas as suas variáveis. Hoje em dia, no mercado globalizado as previsões são transparentes, observa o presidente da Apac. Os dados da Apac, por exemplo, estão na Internet.
A Associação Paranaense de Cafeicultores (Apac) trabalha com a seguinte projeção: 2 milhões de sacas no Paraná; 3 milhões de sacas no Espírito Santo, 2 milhões de sacas no cerrado de Minas Gerais; 6 milhões no sul de Minas e Zona da Mata; 1,8 milhão de sacas no Estado de São Paulo; 2 a 3 milhões nos demais Estados, incluindo Rondônia e Bahia. Carneiro analisou a situação de cada Estado como o aumento da área no Paraná, que ainda não transparece de maneira significativa da produção; a seca no Espírito Santo, que reduziu a safra naquele Estado, e a boa performance de Minas Gerais. Mas nada que explique matematicamente projeções acima de 20 milhões de sacas.
Ilusão de ótica O presidente da Apac observou também que o levantamento do USDA, via satélite, fotografa lavouras viçosas e bem enfolhadas. As boas condições das árvores cafeeiras não traduzem, necessariamente, em volume de produção. Árvores bem enfolhadas não são necessariamente árvores bem carregadas, que possam converter em produtividade. As imagens falseiam a realidade e o USDA se equivocou.
Carneiro não tem dúvida de que o USDA vai rever sua previsão, mas até lá já causou estrago ao mercado, como aconteceu na sexta-feira com queda de 1.200 pontos na Bolsa de Nova York. No entanto, o fato gerador da alta de preços continua o mesmo: pouca oferta e baixo nível dos estoques mundiais, inclusive os estoques brasileiros.
Bianualidade Carneiro também analisou a situação de todos os demais países produtores. E depois de esmiuçar ponto por ponto os argumentos contrários à previsão norte-americana, ele observou que o prognóstico do USDA contraria inclusive uma lógica da cafeicultura brasileira. A lógica é a alternância entre ano de alta produção e ano de baixa produção. Assim, por essa bianualidade, como o ano passado foi um ano de alta produção (com a safra 96/97 avaliada em 27 milhões), a safra 97/98 (ano de baixa, ou ano do não como se convencionou chamar na agricultura) só pode ser menor e não maior que a anterior, como avalia o USDA. Essa supervalorização contraria uma lógica de mais de 50 anos.
O presidente da Sociedade Rural Brasileira, Luiz M. Suplicy Haffers, afirma que entre incompetência e irresponsabilidade a previsão do USDA passa pela desonestidade. Outros produtores como Orlando Patrial, vice-presidente da Apac, e Alexandre Pompéia Coutinho, fazendeiros do Norte Pioneiro, também criticam a previsão do USDA.
O presidente da Apac fez uma rápida análise do mercado mundial e ponderou que a redução no consumo em face da entrada do verão no Hemisfério Norte é variável importante a ser considerada mas na medida em que as torrefações forem se reabastecendo a redução da mercadoria fica novamente caracterizada. Num quadro de análise de oferta e procura fica saliente o fato de a Colômbia só entrar novamente no mercado em dezembro a janeiro. Neste período o mercado internacional continuará se abastecendo do café brasileiro.


