Reali Júnior
Agência Estado
De Paris
Descrito na Europa como apóstolo do neoliberalismo brasileiro, o ex- presidente do Banco Central, Gustavo Franco, defendeu esse modelo adotado pelo Brasil numa entrevista ao jornal ‘‘Le Figaro’’, a primeira a um diário francês após sua demissão. A seu ver, ‘‘no Brasil uma volta atrás é impossível’’, convencido que o liberalismo ofereceu ao País estabilização, abertura econômica e o retorno dos investimentos estrangeiros, enquanto as privatizações já permitiram arrecadar 72,7 milhões de euros, cifra que nenhum outro país do mundo jamais obteve’’.
Dessa forma, Gustavo Franco acredita que a abertura da economia no Brasil vai prosseguir e as reformas vão ser realizadas e que a velocidade dependerá da vontade política. Ele defendeu a necessidade do Brasil equilibrar suas finanças, ‘‘o que transcende as ideologias’’, mas prevê um caminho doloroso com resistências muito fortes.
Franco não deixou de criticar seus detratores. A seu ver, no Brasil dois países se opõem. Um, do qual ele faz parte, ‘‘jovem, dinâmico, que nada pede ao Estado e que empreende com sucesso’’. A seu ver, esse é o grupo dos lutadores que não aparece muito, mas representa o progresso.
Diante dele, ainda segundo Gustavo Franco, encontra-se o país dos vencidos e perdedores, ‘‘dos que controlam todas as federações industriais, de produtores e agricultores, dos que lutam apenas para conservar seus interesses egoístas, rejeitando as mudanças’’. Também a esquerda, os sindicatos e mesmo os deputados da maioria governamental não foram poupados, identificados nesse segundo grupo: ‘‘Eles sabem que lançar grandes projetos de desenvolvimento é inútil, mas isso permite ganhar votos nas eleições’’.
Se o modelo liberal deu tantos resultados, como explicar a crise? Gustavo Franco só concebe um caminho para promover avanços nos países emergentes: manter as finanças públicas equilibradas. Do contrário o Estado se endivida, emite títulos para financiar e empurra as taxas de juros para o alto. É isso o que se passa no Brasil, onde em 1997 o déficit público era de 5,7% do PIB e se encontrava sob controle, mas ao invés de aplicar o plano de rigor, o governo em plena campanha eleitoral, aumentou suas despesas e o déficit atinge atualmente 15% do PIB.
Ora, o próprio ‘‘Le Figaro’’, jornal de linha conservadora, à margem da entrevista de Gustavo Franco publicou um box sobre as ‘‘dúvidas do modelo neoliberal’’, lembrando que mesmo o FMI admite que a ampla abertura das fronteiras e dos mercados de capitais nos países emergentes foi prematura. Em média, as nações ricas conheceram taxas de crescimento superiores às dos países emergentes, deixando a impressão que a mundialização foi muito mais benéfica aos ricos.

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