''Leite vale menos que urina da vaca''
Ponta Grossa - A primeira audiência pública da Comissão Parlamentar de Inquérito dos Alimentos (CPI do Leite), realizada ontem, em Ponta Grossa, começou com depoimentos estarrecedores. Segundo o deputado Eli Ghellere (PDT), sub-relator da CPI, na região Sudoeste, onde vários produtores de hortifrutigranjeiros estão aderindo à produção orgânica, a urina da vaca está sendo vendida a um preço superior ao do leite. Enquanto pelo litro do leite o produtor recebe R$ 0,17, pela urina, que é usada como repelente de insetos, vem recebendo R$ 0,23.
A CPI do leite foi criada pela Assembléia Legislativa no final de novembro de 2001 e tem o objetivo de descobrir onde estão os principais gargalos da cadeia produtiva do leite. Isto porque, no prazo de um ano o preço pago ao produtor caiu cerca de 30%. Mas essa redução não chegou ao consumidor final do produto.
A grande redução no preço pago ao produtor está inviabilizando a atividade. Diversos produtores que participaram da audiência de ontem deram seus testemunhos. Aqueles que ainda não demitiram funcionários estão tendo que vender o rebanho para fazer frente aos compromissos salariais.
Na opinião dos produtores, o grande vilão da queda nos preços é a indústria. As principais críticas foram feitas à Batávia, que atua na região. A Batávia/Parmalat tem a finalidade de destruir o produtor, disparou o produtor Divonsir Pinto Mendes, de Arapoti. Outro produtor, Jeocir Ancheski, de Irati, levou notas fiscais de compra de insumos de dezembro de 1994 e do mesmo mês de 2001. Praticamente todos os produtos tiveram aumentos superiores a 100% e o preço do leite subiu apenas R$ 0,1. A saca da semente de milho, por exemplo, passou de R$ 20,00 para R$ 60,00, um aumento de 200%. A ração subiu 89%, de R$ 7,40 em 1994 para R$ 14,00 em 2001.
Já o presidente da Cooperativa Batavo, Franke Dijkstra, considera que as grandes redes de supermercados é que são responsáveis pelo achatamento do preço do leite pago ao produtor. A relação produtor/indústria não é problema porque a indústria não tem grande poder para reverter o quadro, considera.
Como presidente de uma das maiores cooperativas da região, Dijkstra disse que está procurando outros compradores para melhorar o retorno do produtor. Até a Parmalat fazer sociedade com a Batavo, praticamente 100% do leite produzido na região era entregue a esta indústria. Hoje 50% do nosso leite está sendo vendido para outras indústrias, revela o presidente.
Os trabalhos da CPI vão até quinta-feira em Francisco Beltrão, Cascavel, Maringá e Londrina. A intenção do presidente da comissão, deputado Orlando Pessuti (PMDB), é concluir os trabalhos até 31 de março, indicando no relatório final alternativas para superar a crise.





