A lavagem de dinheiro no mundo movimenta US$ 500 bilhões ao ano. No Brasil, a Polícia Federal abriu 177 inquéritos ligados ao crime ano passado, 43% acima de 2000. Em três anos, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) já recebeu 14 mil notificações de operações suspeitas.
Para o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, o combate à lavagem de dinheiro exige uma coordenação global maior entre os países e deverá levar a uma ‘‘inexorável tendência de flexibilização’’ das regras atuais de privacidade e sigilo no mundo, em cinco a dez anos.
A flexibilização das regras dependerá, contudo, de uma ampla discussão pública sobre o assunto, disse Armínio, que participou ontem de um seminário sobre o tema, promovido pelo consulado americano. Ele argumentou, ainda, que os bancos devem aprofundar o conhecimento dos clientes. ‘‘Não é possível aceitar, com a tecnologia disponível hoje, que dinheiro sujo encontre porto seguro no mundo. Vamos caminhar para um futuro em que cada centavo depositado ou investido no mundo civilizado será identificado’’, disse o presidente do BC.
Fraga alertou que a lavagem também passa pelos países mais desenvolvidos, ‘‘que têm moedas mais estáveis e que também são, portanto, objeto de desejo financeiro dos bandidos’’.
A presidente do Coaf, Adrienne Senna, explica que as operações ocorrem em três fases: colocação, ocultação e integração. Depois da entrada no sistema financeiro, os recursos vão para os paraísos fiscais, para ocultação. Na terceira etapa, são integrados à economia, pela aplicação em ativos, geralmente de elevado valor, em grande parte, em países desenvolvidos, onde há maiores chances de ganho.
Além da estimativa de movimento anual do ‘‘dinheiro sujo’’, feita por especialistas, documento distribuído pelos organizadores do evento informa que 80% (ou US$ 400 bilhões) do total são gerados pelo narcotráfico, conforme projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial. O documento cita avaliação de autoridades americanas de que ‘‘traficantes de drogas se beneficiam das habilidades militares dos terroristas, do fornecimento de armas e do acesso às organizações clandestinas’’.
No Brasil, conforme dados do Coaf, as 14 mil comunicações recebidas dividiram-se assim: 9.381 vieram do setor bancário, 2.418 de bingos, 1.651 do setor imobiliário, 311 de loterias, 89 de empresas de factoring e o restante dos setores de seguros, bolsa de valores e fundos de pensão.
As atividades estão listadas na Lei 9.613, que trata da lavagem de dinheiro e obriga a identificação de clientes e criação de cadastro, manutenção de registros sobre as aplicações financeiras e o relato de operações aparentemente ilegais.
A presidente do Coaf afirmou que o Brasil faz parte do grupo dos dez países que cumpriram todas as recomendações de combate ao crime do grupo de ações financeiras internacionais. Além disso, o País, segundo a representante, já resolveu a questão do sigilo bancário, como mostram os exemplos em que a garantia foi quebrada por força judicial.

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