O ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer, está irritado com seu antecessor, Luiz Felipe Lampreia. Causaram constrangimento no Itamaraty as declarações do ex-chanceler de que o projeto de união aduaneira do Mercosul é um ''faz de conta'' e que deve ser abandonado. Ontem, Lafer declarou que discorda da opinião de Lampreia e reforçou o argumento mantido até agora pelo governo de que um Mercosul reduzido ao livre comércio entre seus sócios seria um retrocesso. O bloco, alertou, desapareceria com a Área de Livre Comércio das Américas (Alca).
''Meu amigo Lampreia propõe suspender a Tarifa Externa Comum (TEC) e limitar o Mercosul a uma área de livre comércio. Ou seja, diante de problemas de conjuntura, sugere a suspensão dos compromissos existentes e a dissolução do grande projeto do Mercosul'', afirmou Lafer. ''Eu discordo inteiramente dessa opinião.'' De acordo com fontes diplomáticas, as declarações de Lampreia, durante uma conferência em Washington, na última quinta-feira, causaram surpresa do Itaramaty. O próprio ex-ministro havia sido um dos principais defensores do Mercosul como uma união aduaneira, com a ambição de chegar a um mercado comum no futuro, durante seus sete anos à frente do Itamaraty.
União aduaneira é processo de integração que não se restringe somente à redução das tarifas de importação no comércio entre os seus sócios para zero, como uma clássica área de livre comércio. Vai além e envolve a definição de uma política externa comum para o bloco. No caso do Mercosul, esse objetivo é cumprido por meio da aplicação da TEC pelos quatro sócios e da disposição de negociarem em bloco com outros parceiros comerciais.
As declarações de Lampreia, segundo essas fontes, reforçariam os argumentos dos ''críticos de plantão'' ao Mercosul. Entre eles, o ministro de Economia da Argentina, Domingo Cavallo, setores empresariais argentinos e o presidente do Uruguai, Jorge Battle. Ou seja, alimentariam discursos que o governo brasileiro custou a abafar. (AE)

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